Paulo Whitaker/ Reuters
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Dez dúvidas sobre o futuro da Embraer após o fim do acordo com a Boeing

Empresa brasileira já tinha gasto cerca de R$ 500 milhões para completar o negócio, que foi desfeito em um momento de grave crise no setor aéreo

André Vieira, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 11h51

O fim da negociação entre Embraer e Boeing na área de aviação comercial, anunciada no sábado, 25, pela norte-americana, abre uma janela de incertezas sobre o futuro da fabricante brasileira, fundada em 1969.

Veja dez dúvidas deixadas na mesa após o anúncio do fim da transação

  1. Litígio com a Boeing. Com o fim do acordo, a Embraer promete abrir um embate com a Boeing, com vistas a um pedido de compensação financeira. A fabricante americana diz que a brasileira não cumpriu certas condições, sem especificar quais, o que a isentaria de responsabilidade por uma indenização. A Embraer rejeita a tese. A disputa é incerta e poderá levar tempo até seu desfecho.
  2. Defesa. Embora o comunicado da Boeing aponte a manutenção da parceria com a Embraer em relação ao C-390, cargueiro projetado pela empresa brasileira, o litígio coloca em dúvida a continuidade do acordo. A Embraer não comentou o assunto até o momento.
  3. Custos com a transação. A Embraer já havia gasto quase R$ 500 milhões para completar o negócio com a Boeing, segundo estimativas. Além das despesas com assessores financeiros e jurídicos, a Embraer criou novas empresas para acomodar a parceria, adaptou suas fábricas e migrou funcionários. Tudo isso deverá ser revisto, o que adicionará custos extras.
  4. Sinergias canceladas. Uma das alavancas do acordo era fortalecer as vendas e o marketing dos jatos comerciais da Embraer com o longo braço da Boeing e os interesses geopolíticos dos Estados Unidos, além de elevar o poder de barganha da joint venture em sua cadeia de suprimentos. Tudo isso deixa de acontecer a partir de agora. As turbinas da Embraer, por exemplo, são feitas pela GE, uma empresa com longa parceira com a Boeing.
  5. Dividendo especial. Se fosse concretizado, o acordo entre as duas empresas previa o pagamento de um dividendo especial de US$ 1,6 bilhão aos acionistas da Embraer. Esse dinheiro não virá mais.
  6. Valorização do papel. De janeiro para cá, a ação da Embraer caiu 58% (o 7ª pior desempenho do Ibovespa no ano), só na sexta-feira, a retração foi de 10%. As ações ON da companhia já iniciaram o pregão desta segunda-feira, 27, com queda de 14% e entraram em leilão.
  7. Demanda no chão. A pandemia do coronavírus deixou milhares de aviões no chão. Segundo a Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês), o setor deve perder US$ 314 bilhões em 2020, o que representa metade da receita total de 2019. Várias empresas aéreas estão renegociando ou cancelando contratos com os fabricantes. Com 90% dos seus aviões no chão, a Azul, que tem 40% de sua frota de 145 aviões com a marca Embraer, disse vir conversando com o CEO da fabricante nacional, Francisco Gomes Neto. "Estamos juntos (com a Embraer). Essa batalha é nossa. Esse não é o momento para brigar com ninguém", disse o presidente da Azul, John Rodgerson, no dia 15.
  8. Socorro. Companhias aéreas como Azul, Gol e Latam estão negociando com o BNDES e bancos privados um pacote de ajuda similar ao que foi feito pelo governo Donald Trump nos EUA, que também acena um socorro à Boeing. Não é descartada a possibilidade de um salvamento oficial da Embraer agora.
  9. Competidores.  Um dos apelos a favor do negócio era que a Embraer tinha ficado muito pequena em um mercado com pesos pesados e precisava do apoio da Boeing. Rival no segmento de jatos de até 150 lugares depois de ter fechado acordo de compra do programa C-Series da canadense Bombardier, a Airbus terá mais fôlego em um mercado no qual chineses da Comac, além de russos e japoneses, também planejam ampliar seu espaço.
  10. Novos jatos. Em seu principal projeto em andamento, a Embraer investiu US$ 1,7 bilhão no desenvolvimento do E-Jets E2, uma família de 3 novos jatos comerciais. A empresa deverá rever seu cronograma. A entrada em serviço e certificação do modelo E-175, antes da crise da covid-19 e do fim do acordo com a Boeing, era para 2021.

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