Dez razões para ter cuidado com a China

Há duas semanas, o Estado publicou um artigo do excelente economista Stephen Roach intitulado "Dez razões para apostar na China". Elas, resumidamente, são: o país tem estratégia, compromisso com a estabilidade das regras e meios para realizá-las. São pontos certamente verdadeiros, embora tenha faltado dizer que, entre "os meios para realizar", destaca-se a severa ditadura no país.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Ademais, a China tem uma alta taxa de poupança e uma crescente urbanização (que passou de 20% a 46% nos últimos 30 anos), o que eleva persistentemente a demanda por investimentos na infraestrutura. O consumo, como proporção do PIB, é reconhecidamente baixo (37% citado no artigo ou 34% segundo os dados mais recentes), mas deve crescer até mais cinco pontos porcentuais nos próximos anos, se o novo Plano Quinquenal for bem sucedido; da mesma forma, os serviços representam apenas 43% do PIB, e poderão crescer até mais quatro pontos porcentuais nos próximos cinco anos.

Ressalto que essas duas últimas observações representam uma projeção e não uma constatação, como as anteriores. Os três últimos fatores apresentados pelo autor são: a importância do investimento direto estrangeiro (que aporta tecnologia e gestão), o bom sistema educacional e as melhoras na área de inovação.

Com base nesses pontos, Roach conclui que não é hora de apostar contra a China, com o que concordamos completamente. Na MB, continuamos com a visão de que a China deve continuar a crescer vigorosamente, ao menos nos próximos dois ou três anos. Mas o que ocorre a partir daí?

A resposta é muito importante para nós, uma vez que estamos muito ligados a ela via mercado de commodities. Nunca achamos isso ruim, pelas oportunidades que traz ao país e desde que continuem os avanços na criação de tecnologia, na inovação, na geração de novos produtos e na integração das cadeias produtivas, para frente e para trás, como parece estar acontecendo. Junto com o crescimento do mercado interno e a elevação dos investimentos, as cadeias de recursos naturais formam as alavancas do crescimento do país.

Daí porque é preciso muita atenção ao que acontece naquele país. Para muitos analistas, o cenário traçado por Roach deve perdurar por longo período. Para nós, entretanto, é preciso tomar algum cuidado quando se olha além dos próximos poucos anos.

Antes de tudo, pelo que ocorreu no Japão a partir da década de 80. Apenas para relembrar: em meados dos anos 80, o PIB japonês representava algo como 37% do americano (na metodologia PPP, ou um pouco menos em dólares correntes) e era muito popular estimar quando a economia oriental passaria a americana, dado o sucesso do milagre japonês. Entretanto - e como se sabe o milagre se esgotou -, hoje o Japão tem um PIB da ordem de 29% do americano.

É claro que a história não vai necessariamente se repetir, mas muita gente está mais uma vez tentando estimar se a ultrapassagem chinesa se dará nos próximos oito, dez ou doze anos.

Para acalmar espíritos mais afoitos, aqui vão as primeiras cinco razões para ter cautela com a China. O espaço me obriga a dividir esta análise um duas partes. As outras cinco razões serão publicadas no próximo artigo.

1 -Dinâmica populacional. Três décadas da política de um filho por casal produziram uma tremenda redução no crescimento populacional; o número de jovens entrando no mercado de trabalho está caindo drasticamente, pressionando o salário real (cujas implicações discutiremos adiante). Mais importante, o acelerado envelhecimento da população deverá implicar em forte elevação na proporção de idosos em relação às pessoas que estão trabalhando (a chamada relação de dependência), pressionando a renda familiar, pois a previdência social praticamente inexiste. Ao contrário do ocorrido com Japão, Coreia ou Taiwan, o povo chinês está ficando velho antes de ficar rico, como vários analistas já apontaram.

2 - Redução na oferta de terras. Na contramão da forte elevação da demanda por alimento, resultado das elevações do salário real, a oferta de terras agricultáveis vem caindo quase 1% ao ano, resultado do avanço da desertificação, erosão e, especialmente, da expansão urbana sobre as (melhores) áreas rurais. Além disso, o excesso de uso de produtos químicos, resíduos minerais e água poluída prejudicam severamente parte da área cultivada. O custo de alimentação tem, em consequência, sido fortemente pressionado (crescendo hoje a uma taxa superior a 11% anual), puxando a inflação para cima, mesmo elevando-se a quantidade de alimentos importados.

3 - Redução na oferta de água. A China é pobre em água, relativamente ao tamanho de sua população. Com a urbanização, a disputa entre o uso agrícola e o uso das cidades vai se tornando aguda, levando a racionamento e conflitos cada vez mais recorrentes. A água subterrânea está sendo superexplorada (como na Índia) antecipando uma restrição crescente e custosa. A poluição torna de má qualidade boa parte da oferta.

4 - Poluição, aquecimento global e meio ambiente. Os custos econômicos e humanos desses fenômenos são muito grandes e crescentes. Embora possa se argumentar que existem aqui boas oportunidades de investimento para minorar as dificuldades, os exemplos (especialmente na Europa) de ações bem sucedidas na redução desses problemas ainda são relativamente limitados, caros e exigem muito tempo para atingir seus objetivos.

Em particular, gostaria de chamar a atenção para a questão dos problemas climáticos, resultantes do aquecimento global: excesso de chuvas em certos momentos, grandes secas e elevadas temperaturas em outros, frio excessivo, etc, estão afetando recorrentemente a produção agrícola na China, como de resto no mundo todo, reforçando as observações já feitas anteriormente quanto à redução na oferta de terras e limitações na disponibilidade de água de boa qualidade.

5 - A oferta de energia. Apesar de todos os investimentos realizados, persistem problemas na oferta de energia em muitas regiões, gerando inclusive frequentes interrupções do serviço, especialmente no verão. Ademais, existe uma grande dependência do uso de carvão mineral na geração de energia elétrica, produto sujo e em geral da baixa qualidade. A despeito disso, os preços do carvão terão de ser elevados para garantir a expansão da produção. A limitada disponibilidade local de petróleo exige crescentes importações, o que vem levando as companhias chinesas a investir no exterior, buscando garantir o suprimento.

A demanda chinesa (e de outros países da região) vem mantendo o mercado internacional muito pressionado e os preços elevados. Exceto no caso de uma nova recessão nos países ricos, o que nos parece pouco provável, os preços do petróleo devem se manter na faixa dos US$ 100 por barril nos próximos anos.

A energia vai se tornar cada vez mais cara, pressionando os custos, juntamente com a alimentação e os salários. Finalmente, a matriz energética chinesa é particularmente suja; aumentar a produção de outras fontes, como a eólica, é desejável. Mas, por ser mais cara, vai elevar ainda mais o custo para os produtores e consumidores.

Essas pressões inflacionárias e de custo vieram para ficar, o que não é trivial em um país com renda média por habitante ainda muito baixa.

Em nosso próximo encontro abordarei questões ligadas às exportações, ao câmbio, à limitação do mercado interno, à educação e à geração de tecnologia e, finalmente, a questão política e social. Até lá.

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