Dia de greve geral tem confrontos e falta de transportes no país

As duas centrais sindicais do país se uniram para protestar contra retirada de direitos e cortes no orçamento de 2012

JAIR RATTNER , ESPECIAL PARA O ESTADO / LISBOA, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h04

Os trabalhadores portugueses realizaram ontem um dia de greve geral, numa rara união entre as duas centrais sindicais, a UGT - controlada por membros do Partido Social Democrata, de centro direita, e do Partido Socialista - e a CGTP, dirigida pelo Partido Comunista Português.

O alvo da greve é o orçamento para 2012, que traz à realidade dos portugueses os acordos do país com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. Entre as medidas, estão a retirada do 13.º e do 14.º salários dos funcionários públicos, o aumento do gás, da eletricidade, da água e uma alta dos impostos.

Além disso, há outras medidas anunciadas, como a diminuição das indenizações para quem demitir sem justa causa e o aumento de meia hora de trabalho por semana para os trabalhadores do setor privado. Milhares de trabalhadores que estavam ligados ao Estado com contratos precários não tiveram seu vínculo renovado, o que atingiu especialmente professores.

A greve provocou uma disputa de números em relação à adesão dos trabalhadores. Pela manhã, o governo comunicou que apenas 3,9% dos funcionários públicos teriam aderido ao movimento. No fim dia, apresentou outros dados, dizendo que a paralisação foi de 10,48%. Ao mesmo tempo, as centrais apontavam dados superiores a 90%.

Na realidade, os serviços públicos funcionaram pela metade: as escolas e os tribunais fecharam e na maior parte dos hospitais houve apenas atendimento de urgência. O setor de transportes foi o mais afetado, apesar da exigência de serviços mínimos. Com a adesão dos controladores aéreos, cerca de 300 voos não se realizaram, entre eles os 10 que a empresa TAP faz para o Brasil.

Durante a tarde, ao fim de uma reunião do conselho de ministros, o titular da pasta dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, procurou mudar o tom. "Para nós, a greve geral não é uma guerra de números. Respeitamos o direito de quem quer fazer greve, mas a situação em que Portugal se encontra só será ultrapassada com muito trabalho e muita seriedade."

Confrontos e bombas. Ao contrário do que costuma ocorrer nas manifestações políticas portuguesas, houve confrontos. Durante o dia, três repartições fiscais de Lisboa foram atingidas por coquetéis Molotov e tinta.

Duas marchas de protesto tomaram as ruas: uma dos sindicatos e outra do movimento criado na esteira da Revolução de Jasmim, da Tunísia. No fim da tarde, depois de terminada a manifestação dos indignados na frente do Parlamento, algumas pessoas tentaram derrubar as grades colocadas pela polícia. Na última manifestação dos indignados, há um mês, as barreiras foram ultrapassadas e não houve reação da polícia. Desta vez, a polícia tentou impedir o avanço dos manifestantes, que arremessaram garrafas nos policiais. Sete manifestantes foram presos e um policial ficou ferido.

Brasileiros. A greve atrapalhou muitos brasileiros de passagem por Lisboa. "Foi um transtorno tremendo, perdi perto de R$ 2 mil", disse o professor aposentado Leovegildo Dutra, de Nova Friburgo, no Rio. Ele tinha um trem marcado para ir ao santuário de Lurdes, na França, mas a composição não partiu. Perdeu a reserva do hotel na França, a reserva do trem que ia de Lurdes para Milão e também o hotel que já havia pago em Milão.

Em turismo com a esposa, o engenheiro aposentado Eduardo Mees ficou no hotel durante o dia. "Perdi a oportunidade de fazer dois passeios. Mas só dá para ir de táxi, e com a greve dos transportes o trânsito está pior."

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