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Diagnóstico e início de tratamento podem demorar meses

Pacientes enfrentam longas filas até mesmo para exames simples e grandes intervalos entre consultas

O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2015 | 02h07

É consenso entre médicos que o diagnóstico precoce aumenta as possibilidades de cura. Mas as longas filas para exames básicos e a sequência de encaminhamentos para diferentes especialistas, com intervalos espaçados entre consultas, interferem no processo.

Presidente da Oncoguia, ONG que oferece apoio e orientação para pacientes com câncer, Luciana Holtz diz que os pacientes da rede pública são prejudicados com as fases impostas para que eles tenham acesso ao tratamento.

"Tudo começa na atenção básica. Os postos de saúde têm muitos problemas. O primeiro é que, muitas vezes, não tem médico. Quando tem, ele não examina, não olha no olho e não toca no paciente. Depois, há fila para exames simples, como mamografia e colonoscopia. Com o resultado dos exames, ele volta para o posto para, então, ser encaminhado para o especialista. Outra etapa é a atenção especializada, que também tem fila", detalha.

Luciana dá como exemplo a fila do exame de colonoscopia, feito para a detecção de câncer colorretal. "Os postos não fazem a colonoscopia e a fila pode chegar a seis meses. Mas, com câncer, você ganha tempo quando age rápido."

O exame é o que tem maior fila na cidade de São Paulo entre os procedimentos de detecção dos tipos mais comuns de câncer. São 143 dias, pouco mais de quatro meses, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde referentes a 2014. A secretaria informa, no entanto, que a situação já foi pior. Em 2012, a espera era de 222 dias.

No caso da colposcopia, que rastreia o câncer de colo de útero, a redução da fila foi de 204 dias, em 2012, para 93 dias em 2014. Segundo a pasta, não há filas para os exames de Papanicolau, toque retal, PSA e raio X de tórax para detectar câncer de pulmão. A secretaria atribui a diminuição da espera aos oito hospitais-dia da Rede Hora Certa e às quatro unidades da Rede Hora Certa Móvel, centros que integram realização de exames, consultas com especialistas e procedimentos cirúrgicos.

Um erro complicou o quadro da costureira aposentada Edilene Bolkart, de 35 anos. Diagnosticada com câncer de mama em 2011, os médicos do hospital público onde ela se tratava, na cidade catarinense de Campo Erê, não pediram nenhum exame para verificar se o tumor havia migrado para outros órgãos. "Quando tive o primeiro diagnóstico, eu já tinha dor nos ossos, mas eles não pediram o PET/CT nem uma cintilografia óssea. O que aconteceu foi que eu tratei o câncer de mama e, um ano e meio depois, descobri que havia metástase nos ossos", conta ela. "Fico muito decepcionada, porque se eu tivesse o tratamento correto desde o início, talvez meu quadro não tivesse ficado tão grave", diz a paciente, que ainda realiza sessões de quimioterapia para manter a doença controlada.

Demora. Pela lei 12.732, mais conhecida como Lei dos 60 dias, o prazo entre o diagnóstico e o início do tratamento para o câncer não deve ultrapassar dois meses. No entanto, dois anos após a lei entrar em vigor, quase metade dos pacientes ainda não consegue iniciar o tratamento no prazo. Criado em 2013, o Sistema de Informação de Câncer (Siscan) monitora o cumprimento da lei. Segundo o Ministério da Saúde, o sistema ainda está em implantação e é utilizado por 10.970 serviços de saúde em 4.867 municípios do País.

"O sistema possui 29.188 pacientes registrados com câncer, dos quais 13.810 estão em tratamento. Dos pacientes em tratamento, aproximadamente 60% estão em cumprimento com a Lei dos 60 dias", afirmou o ministério, em nota.

A radioterapia é um dos tipos de tratamento em que os pacientes mais têm dificuldade de acesso na rede pública. "A fila da radioterapia em Sorocaba, por exemplo, está um caos. Já passa de seis meses", afirma a presidente da Oncoguia.

O pai da vendedora Priscila Rodrigues Ramos, de 27 anos, está na fila de espera desde setembro do ano passado na Santa Casa do município do interior paulista. Ele foi diagnosticado com câncer de próstata em outubro de 2013 e, em agosto do ano passado, submetido a uma cirurgia para retirar o tumor.

Priscila conta que o pai foi chamado para o hospital neste ano para fazer uma radiografia e informado que faria uma tomografia antes de iniciar o tratamento. No dia do primeiro exame, em maio, recebeu a informação de que a máquina de tomografia estava quebrada.

"A gente ficou muito feliz porque tinham chamado depois de quase um ano, mas já faz mais de um mês que a máquina quebrou e não resolvem. Falaram que não dá para fazer em outro lugar, porque tem de fazer com o especialista do hospital. Estou sempre ligando para cobrar." A Santa Casa de Sorocaba confirmou que o tomógrafo está quebrado. Sobre a radioterapia, o hospital informou que a fila tem 188 pessoas e que a agenda está lotada. / P.F.

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