Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Diante do forte avanço das dívidas, empresas buscam refinanciamento

Endividamento. Nos últimos cinco anos, enquanto a dívida bruta das companhias com ações na Bolsa aumentou cerca de 60%, a geração de caixa avançou apenas 30% no período; segundo bancos, procura por troca e pela recompra de dívidas cresceu neste ano

ALINE BRONZATI, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2014 | 02h05

O alerta que o Fundo Monetário Internacional (FMI) fez nesta semana sobre a possibilidade de as empresas brasileiras terem dificuldade de honrar suas dívidas em um cenário de estresse evidencia o forte aumento do endividamento dessas companhias e o impacto futuro desta conta, na visão de especialistas.

Nos últimos cinco anos, a dívida bruta dos grupos de capital aberto no Brasil aumentou em cerca de 60%, em termos nominais, sem descontar a inflação. No mesmo período, no entanto, a geração de caixa (Ebitda) das companhias cresceu em um ritmo bem mais lento, em um avanço de apenas 30%.

O levantamento, feito pela consultoria Economática a pedido do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, não considera os números da Oi, em função da reestruturação pela qual a empresa está passando, nem a Petrobrás, cujos números distorcem o dados gerais das empresas da Bolsa. No período, a dívida das companhias abertas saltou de R$ 363 bilhões para mais de R$ 585 bilhões. Se considerada a estatal, a conta dispara para mais de R$ 853 bilhões, o dobro dos cerca de R$ 427 bilhões vistos em 2008.

Cresceram não só as dívidas locais, mas também o passivo no exterior, elevando a exposição cambial dessas empresas. "Mas, as companhias brasileiras aprenderam lições com a crise do subprime e várias já utilizam mecanismos de proteção (hedge) contra a variação cambial", diz Marcos Piellusch, professor e coordenador de cursos do Labfin/Provar da FIA (Fundação Instituto de Administração).

O ritmo de geração de caixa (Ebitda) para fazer frente às obrigações e aos investimentos programados avançou mais lentamente em função de anos consecutivos de desaceleração da economia brasileira e de crise internacional. De 2008 para cá, o Ebitda das companhias de capital aberto no Brasil alcançou R$ 218,5 bilhões, elevação de 30% neste período. Com a Petrobrás, a variação cai para 22,6%.

Esse cenário, segundo analistas, pode se agravar com o risco de o Brasil, após a realização dos jogos da Copa e das Olimpíadas, enfrentar uma conjunção de baixo crescimento, inflação resiliente e mais aumento de juros externos. "Esse ambiente aumentaria o risco das empresas que deixaram de investir porque não têm como crescer. As companhias brasileiras incharam e agora precisam dar um passo para trás, focar em eficiência operacional e rentabilidade. O problema é a pressão pelo crescimento", diz um gestor de recursos que compra títulos de dívida corporativa.

Recompra. Desde o ano passado, boa parte das empresas têm feito movimentos no sentido de melhorar seu endividamento. De acordo com Renato Ejnisman, diretor gerente do Bradesco BBI, cresceu a demanda não só pela troca de dívidas no primeiro trimestre deste ano, mas também o volume de operações de recompra de dívida. Antes, a taxa de sucesso nessas transações variava de 20% a 30%, conforme ele. "Temos conseguido chegar próximo de 60%, 70% na recompra", afirma.

A Usiminas, por exemplo, recomprou, em novembro último, US$ 344 milhões em eurobônus de sua própria emissão, de um total de US$ 600 milhões. A empresa deixou de pagar juros de 8% nesses títulos, revertendo esses recursos para si própria. Já as alimentícias, que expandiram suas operações ao custo de um alto endividamento, também viram seus índices de alavancagem recuarem.

Após a venda da Seara Brasil e Zenda para a JBS em meados do ano passado, operação na qual foram eliminados R$ 5,8 bilhões em dívidas, a Marfrig viu sua alavancagem (relação dívida líquida/ Ebitda) ficar em 3x ao final do quarto trimestre, ante 4,31x no mesmo período de 2012.

Diante do esforço de algumas empresas de se refinanciarem, Piellusch, da FIA, acredita que as companhia brasileiras podem não estar tão despreparadas como apontou o estudo FMI. Segundo o Fundo, metade da dívida corporativa brasileira estaria "sob risco" no caso de uma séria turbulência externa.

Piellusch lembra, porém, que as empresas brasileiras ainda possuem, em média, alavancagem inferior, por exemplo, às americanas. A média de dívida líquida/Ebitda das dez maiores companhias brasileiras, conforme ele, é de 1,4x enquanto que a mesma conta feita para as americanas mostra um indicador médio de 2,4x. / COLABORARAM CLÁUDIA TREVISAN, BETH MOREIRA, FERNANDA GUIMARÃES E SUZANA INHESTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.