Coluna

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Dias difíceis para a City londrina

A City, centro financeiro de Londres, foi o motor e o símbolo do longo boom econômico londrino. Mas, com a Grã-Bretanha se defrontando com a mais alta taxa de desemprego em mais de uma década, a City sofre com a perda de postos de trabalho e também de prestígio.Bancos que há um ano apenas intensificavam suas operações para lucrar com a explosão dos investimentos globais agora se precipitam para conter as despesas, com a ameaça de estagnação em todo o mundo. Ao mesmo tempo - da UBS ao Citigroup, da Goldman Sachs e Royal Bank da Escócia até o Merrill Lynch e HSBC -, todos são condenados por um público para o qual o seu gosto pelos riscos foi o responsável pela atual crise financeira. "Ganância é o que a City representa", disse Geraint Anderson, ex-banqueiro do Dresdner Kleinwort, cujo romance, Cityboy, uma narrativa dos excessos e iniqüidades na City de Londres, se transformou em best-seller. "Eles trapaceiam, mentem, fazem tudo o que podem para lucrar cada vez mais."As afirmações de Anderson são tão surpreendentes quanto ele, mas a exposição dos pecados dos banqueiros encontrou um público ávido, tanto em Londres como no exterior. Um documentário sobre a sua vida será exibido na Alemanha. Os economistas prevêem que, até o fim de 2009, cerca de 62 mil postos serão perdidos no âmbito do setor de serviços financeiros londrino, levando o setor de volta aos níveis de emprego de 1998. E essa ainda é uma previsão otimista.As dificuldades da City também contribuíram para o desaquecimento econômico da Grã-Bretanha. Em outubro, o número de pessoas na Grã-Bretanha recebendo auxílio-desemprego cresceu a um nível não visto em 16 anos, chegando a 980.900."É o período mais difícil jamais visto", disse Stuart Fraser, que trabalha na City londrina. "Há perda de confiança nos serviços financeiros. Precisamos refazer nossa reputação."Antes disso, porém, é preciso resolver o problema do crescente número de executivos de bancos desempregados - tarefa cada dia mais difícil."É realmente um período cansativo", disse o executivo de um grande banco de investimento em Londres, demitido este mês. "Neste ambiente, acho que é loucura ir direto para outro emprego na City."Muitos executivos de bancos demitidos insistem que ainda poderão encontrar trabalho no setor de serviços financeiros, apesar dos prejuízos históricos em áreas que prosperaram tanto, como as de renda fixa, derivativos e finanças corporativas. "É como os mineiros, nos anos 80, que também procuraram se reinventar", disse Shaun Springer, diretor da Napier Scott, agência de emprego de executivos. "Algumas áreas deixaram de existir."Todos os centros financeiros estão sendo afetados pela crise global, mas no caso de Londres o reverso da fortuna está sendo particularmente doloroso. Não faz muito tempo, artigos e conferências falavam de como Londres substituiria Nova York como centro das finanças globais.E, de fato, recentemente todos os grandes bancos de investimento se estabeleceram ou expandiram seus departamentos especializados em operações com carteira própria e de finanças estruturadas. Os principais traders da área de investimentos da Goldman Sachs estavam baseados em Londres. As decisões do grupo de especialistas da Merrill Lynch, que levaram a empresa a se arriscar desastradamente no campo das obrigações de dívida garantida por ativos, partiram de Londres também. Agora as duas companhias vêm fazendo cortes, e de modo agressivo.No caso da Goldman, esses cortes provavelmente vão atingir 10% da equipe, composta de 32.500 funcionários. Na Merrill, milhares de postos de trabalho também devem desaparecer, com a fusão da empresa ao Banco da América.Segundo um funcionário de uma agência de recrutamento, é um pesadelo quando um trader de títulos hipotecários o procura pedindo ajuda para achar um novo emprego. "O que vou dizer?, se pergunta, pedindo para não ser identificado. "Que ele já não é necessário?" E, em muitos casos, não é. Mas os traders e executivos de bancos, que enriqueceram nos últimos anos, não estão dispostos a aceitar esse tipo de resposta.Segundo Michael Moran, diretor da empresa de recolocação profissional Fairplace, 80% dos executivos de bancos que o procuram querem voltar a trabalhar na City. Apenas alguns se interessam por trabalhos em áreas fora do setor financeiro.Os recrutadores aconselham os clientes a serem mais flexíveis e, se necessário, pensarem em possíveis empregos em mercados com mais potencial de crescimento, como o Oriente Médio.Springer, que diz que os currículos e cartas de referência aumentaram 200% desde agosto, acha que as demissões em Londres poderão chegar a 100 mil antes dessa sangria terminar. Nesse número, ele inclui o todo o pessoal que dá suporte e atende na área administrativa. E calcula que apenas 20 mil vão encontrar um emprego similar novamente.Há muitos sinais de que os executivos de bancos londrinos, que há apenas um ano desfrutavam da tranqüilidade da libra forte e da idéia de que a City escaparia dos estragos em Wall Street, já estão se ressentindo. Em meio à comunidade bancária internacional bem estabelecida e abastada, em Notting Hill, St.John?s Wood e Chelsea, o nível de ansiedade sobe à medida que os patrões cortam programas de ajuda financeira a funcionários estrangeiros, forçando-os a economias que vão desde procurar apoio financeiro para pagar as mensalidades em escolas privadas,até mudar para uma casa menor."O problema de muitos dos grandes bancos de investimento em Londres é que seus funcionários são considerados vendedores corporativos e não banqueiros", disse David Charters, que trabalhou na área e hoje escreve romances nos quais aborda a cultura da City londrina. "Eles estavam enriquecendo com seus investimentos e negócios com carteira própria, até que a música acabou."

Landon Thomas Jr. e Julia Werdigier, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

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