Dieese projeta desemprego recorde este ano

A promessa do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, de criar 10 milhões de empregos no País, vai demorar um pouco para tornar-se realidade. Para o diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), Sérgio Mendonça, os efeitos recessivos da elevação da taxa básica de juros (Selic) deverão influenciar para que o desemprego seja recorde este ano em São Paulo. Até agora, o pior desempenho foi registrado em 1999, ano da desvalorização do real, em que a taxa média de desemprego chegou a 19,3% da População Economicamente Ativa (PEA) da Região Metropolitana de São Paulo, conforme pesquisa do convênio Fundação Seade-Dieese. No ano passado, essa taxa ficou em 19%, o que corresponde a cerca de 1,8 milhão de desempregados. Tradicionalmente, o desemprego sobe no primeiro semestre e cai no segundo. "Agora, com a pressão da alta dos juros, a subida deverá ser mais acentuada e a descida, mais lenta", diz Mendonça. O encarecimento do crédito inibe a criação de novos postos de trabalho e amplia as demissões, diz o diretor do Departamento de Competitividade da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mário Bernardini. Segundo ele, a combinação de juros altos e maior restrição do crédito causa "estragos" na competitividade das empresas, tanto no curto quanto no médio e longo prazos. De um lado, provoca aumento de custos, porque o financiamento da produção fica mais caro. E, de outro, leva ao adiamento ou redução de investimentos. "A indústria paulista enfrentou uma recessão no ano passado (queda de 1,1% na produção, para o IBGE), e com essas condições de crédito dificilmente conseguirá resultados positivos este ano", diz Bernardini. Para o presidente do Grupo Votorantim, Antonio Ermirio de Moraes, a elevação da taxa Selic só piora a situação da economia brasileira. Segundo ele, fica muito mais difícil uma empresa pensar em investir no País. "Com juros elevados, a economia não cresce, só os bancos saem ganhando." Na Semp Toshiba, que disputa com a Philips a liderança nas vendas de TVs no País, a mexida nos juros serviu para reforçar as previsões conservadoras da empresa para o desempenho neste ano. Mas não o suficiente para alterar seus planos, que prevêem repetir o faturamento de 2002, que teve crescimento de quase 20% em relação ao ano anterior. Boa parte das redes de varejo ainda não mexeu nas taxas do crediário, aguardando o movimento dos bancos e da concorrência. A Casas Bahia, maior rede de varejo de eletroeletrônicos e móveis no País, por exemplo, vai manter as taxas atuais (variam de 3% a 5% ao mês, em até 12 prestações) por pelo menos mais uma semana. "Só depois do carnaval vamos avaliar se haverá necessidade de elevar os juros para o consumidor", diz o diretor administrativo-financeiro da Casas Bahia, Michael Klein. No entanto, ele considera mais provável manter as taxas, já que 90% do faturamento vêm do crediário. "Não queremos comprometer a meta de vendas. Mas um possível aumento do desemprego pode atrapalhar, e muito, os nossos planos. Sem emprego, a pessoa deixa de consumir, porque ninguém vai dar crédito a desempregado", diz Segundo ele, a Casas Bahia banca 80% das vendas a crédito com recursos próprios. Os 20% restantes são financiados por bancos. Depois de ter faturado R$ 325 milhões no mês passado, 20% acima de janeiro de 2002, a meta é fechar este ano com faturamento de R$ 5 bilhões, ante R$ 4,2 bilhões em 2002. O setor exportador, um dos poucos onde as contratações ainda devem superar as demissões, é também considerado a última âncora para evitar que o estrago da alta dos juros e do compulsório sobre o Produto Interno Bruto (PIB) seja maior. Consultorias como a LCA e até mesmo órgãos do governo, como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fizeram cortes nas projeções de crescimento do PIB para este ano, que só não foram maiores por causa da arrancada do setor exportador, que começou no ano passado e deve sustentar-se pelo menos enquanto o câmbio continuar competitivo. Os números coincidem. Tanto a LCA como o Ipea baixaram suas estimativas de crescimento de 2% para 1,8%. (Colaborou Milton F. da Rocha Filho/AE)

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