Diferenças no Mercosul são fruto de integração, diz Amorim

O ministro de Exteriores Celso Amorim, afirmou, em entrevista ao jornal britânico Financial Times, que as diferenças existentes no bloco do Mercosul são um resultado inevitável do "aprofundamento" nas relações entre os cinco membros.Segundo o jornal, o bloco esteve diante de todo tipo de problemas, como a nacionalização dos ativos da Petrobras na Bolívia, e a "ameaça" do "beligerante" presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de transformar o Mercosul "em uma plataforma de seus esforços para construir o socialismo do século XXI".Amorim e o "establishment" da política externa brasileira foram criticados pela direita nacional por sua suposta cumplicidade com o "autoritarismo" dos "governos radicais de esquerda da Venezuela e da Bolívia", acrescentou o jornal.No entanto, o ministro afirmou que seus críticos interpretam de maneira errada o caráter do Mercosul, e subestimam a necessidade de uma integração mais ampla, em um mundo no qual, cada vez mais, os recursos e as infra-estruturas físicas têm importância."Se o Mercosul for visto simplesmente de um ponto de vista comercial, não vai ser compreendido. A ênfase nos recursos e na interconectividade é muito maior hoje", afirma.Zonas de conflitoA Venezuela, cuja entrada como membro pleno do Mercosul foi apoiada pelo Brasil no ano passado, é o quinto maior produtor mundial de petróleo, ao tempo que a Bolívia, que foi impedida de entrar no bloco, apesar das tentativas brasileiras, tem as segundas maiores reservas de gás natural da América do Sul."A Venezuela é importante geopoliticamente, não porque aspiremos uma influência política, mas porque faz parte de nossas vias comerciais", disse Amorim. Além disso, o ministro destacou que a estrada com o Peru permitirá ao Brasil ter acesso - pela primeira vez - aos portos do litoral do Pacífico.Segundo Amorim, isso não quer dizer que a liberalização comercial e o compromisso com a democracia que serviram de base para a criação do Mercosul, em 1991, tenham perdido importância.O ministro de Exteriores disse que as exportações brasileiras para a Venezuela cresceram, de algumas centenas de milhões de dólares em 2003, para US$ 3,6 bilhões em 2006.Embora o Brasil simpatize com os objetivos sociais de políticos radicais como Hugo Chávez, não está de acordo com o modelo. "Nosso modelo é de controle e equilíbrio de poderes, e de liberdade de imprensa", afirmou Amorim."Não-intervenção"Mas, ao invés de criticar abertamente, o chanceler brasileiro acredita que é mais eficaz uma política de persuasão, algo que deu frutos na Bolívia, cujo presidente, Evo Morales, renunciou a um projeto mais radical de nacionalização da indústria do gás."Reagimos, mas sem extrapolar. Defendemos nossos interesses de modo pragmático. O princípio é a não-intervenção, embora nos guiemos pelo princípio de não indiferença", explicou Amorim.O ministro afirmou que a política externa brasileira é guiada pela convicção de que a liderança internacional dos Estados Unidos, que não era contestada na época da criação do Mercosul, enfrenta agora o desafio de blocos tão poderosos como a União Européia e a China.Amorim reconheceu ainda que pode haver vítimas ao longo do processo. Segundo lembra o jornal, o Uruguai chegou recentemente a um acordo sobre comércio e investimentos com os EUA, que, levado às suas últimas conseqüências, tornaria inviável a permanência do país no Mercosul.O Brasil tentou atender às queixas tanto do Uruguai como do Paraguai, concedendo créditos para projetos de infra-estrutura, mas Amorim admitiu que, ainda assim, o Uruguai poderia optar por seguir seu próprio caminho, algo que seria "respeitado pelos brasileiros".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.