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Difícil dilema

O tipo de doença econômica da qual o Brasil sofre tende a se agravar

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2017 | 05h00

As revelações da Odebrecht mostram um sistema político inteiramente tragado pela corrupção, de alto a baixo, incluindo o atual presidente, Michel Temer. É evidente que provas terão de ser apresentadas e que, apenas com palavra contra palavra, ninguém pode ser condenado por antecipação.

Mas a sensação da maioria dos brasileiros é de que, apesar dos seus crimes, os dirigentes da Odebrecht relataram bem mais verdades do que mentiras. O mais razoável é supor que ou a empresa mentiu muito, sobre a maioria das acusações, ou descreveu os fatos de forma bem próxima ao que realmente aconteceu. Qualquer argumento de que a empreiteira caluniou o partido da preferência e falou a verdade sobre as agremiações adversárias é pueril e não pode ser levado a sério.

Essa constatação não quer dizer que não possa haver nomes injustamente acusados entre as dezenas de implicados. Porém, se for para estender o véu da presunção de inocência, ou é sobre todos ou sobre nenhum, a não ser em casos em que provas específicas somem-se aos relatos incriminadores da Odebrecht.

Por outro lado, no mundo paralelo da economia, o Brasil atravessa um dos piores e mais decisivos momentos da sua história. O sistema econômico nacional também foi tragado – neste caso, entretanto, pela chamada “armadilha de renda média”, que é a paralisia do desenvolvimento quando o país atinge a metade do caminho entre a pobreza e o mundo das nações desenvolvidas.

Esse não é um fenômeno recente. Entre o final dos anos 70 e o início dos 80, depois de várias décadas de crescimento médio acelerado, o Brasil alcançou cerca de 20% da renda per capita norte-americana. De lá para cá, houve oscilações, mas o País praticamente não saiu daquela mesma proporção.

O congelamento do grau relativo do desenvolvimento nacional, como já observado neste espaço, reflete-se na permanência em níveis inaceitáveis dos indicadores sociais que retratam as condições de vida da maioria da população brasileira. Houve alguma melhora na década passada, financiada pelo boom de commodities, mas que está sendo em parte revertida pela atual crise.

Há um diagnóstico claro sobre as causas do atoleiro que interrompeu a trajetória de desenvolvimento do Brasil, elaborado ao longo dos últimos anos por um amplo conjunto de economistas e cientistas sociais. Sem entrar na crucial questão da governabilidade política, o eleitorado brasileiro pós-democratização sacramentou pelo voto amplas políticas de redistribuição de renda. A estas se somaram as demandas de poderosos grupos de pressão, fazendo a despesa pública crescer a um ritmo muito superior ao da economia, o que é insustentável (a corrupção, claro, é mais um custo).

Recentemente, a desastrada nova matriz econômica da presidente Dilma Rousseff piorou a situação, ao somar àquela conta enormes subsídios a empresas e empreendimentos, cujo resultado foi do medíocre ao desastroso – em suma, o governo gastou mais para o País crescer menos.

Temer no poder montou uma equipe econômica que acredita no diagnóstico descrito acima e iniciou o tratamento apropriado. A economia saiu do modo de pânico, mas ainda não voltou a crescer. O desemprego, que sempre reage com defasagem, ainda está no pico histórico. Agora, há pela frente a batalha decisiva da reforma da Previdência, sem a qual a trajetória insustentável de crescimento da despesa pública não será contida.

O tipo de doença econômica da qual o Brasil sofre tende a se agravar, tornando a cura cada vez mais difícil. Com Temer e esse sistema político que perdeu o respeito da sociedade, há uma oportunidade no presente de desfazer alguns importantes nós. Por outro lado, para grande parte dos brasileiros, e de forma inteiramente justa, a grande oportunidade do momento é justamente a de limpar de forma radical o sistema político. É um difícil dilema.

* COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

 

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