Difícil prever comportamento do dólar

O centro da capital argentina conta oficialmente com uma única rua de pedestres, a Calle Florida. No entanto, o dólar modificou esta situação. Outras duas calles, a San Martín e a Reconquista ? onde estão concentradas as casas de câmbio - transformaram-se forçadamente em ruas de pedestres. O motivo disto foi a avassaladora presença de pessoas tentando desesperadamente comprar dólares e, assim, livrar-se da desprestigiada moeda nacional, o peso.No primeiro de uma seqüência de dias ?D? que o governo terá nesta semana, o dólar não disparou. Esta segunda-feira foi o primeiro dia em quase onze anos em que o peso flutuou livremente em relação ao dólar. Na abertura das casas de câmbio, às 10:00 (11:00, horário de Brasília), a cotação foi de 2,30 pesos para a compra de um dólar. Ao longo da manhã, subiu para 2,70, e depois caiu para 2,30 no meio da tarde. Finalmente, o dia fechou em 2,10.No câmbio paralelo, na sexta-feira passada, a cotação havia sido de 2,35 pesos. No câmbio oficial, até a semana passada, a moeda americana era cotada em 1,40 peso. Cristhian Hirsch, da casa de câmbio Puente Hermanos, disse ao Estado que, apesar da presença de milhares de pessoas nas casas de câmbio, elas estavam comprando um pequeno volume de dólares, por causa de sua falta de liquidez.Este era o caso de Juan José, um jovem advogado desempregado, que, na fila de uma casa de câmbio na rua San Martín, disse ao Estado que tinha a intenção de comprar US$ 200. ?O pouco que tenho, prefiro mantê-lo seguro, em dólares?, explicou. Segundo Hirsch, ?também temos que levar em conta que muitas pessoas viram a alta cotação de manhã e estão esperando os próximos dias para comprar?.Além disso, afirma que depois de uma semana de feriado cambial, muitas pessoas estão vendendo seus dólares para poder pagar contas. O analista disse que é difícil prever o comportamento do dólar nesta semana, mas calcula que, nesta terça-feira, a cotação poderia ficar ao redor de 2,00 pesos.As primeiras pessoas em busca das cobiçadas cédulas esverdeadas chegaram às 2:00 da madrugada. Ao meio-dia, as filas nas casas de câmbio estendiam-se por mais de dois quarteirões, repetindo, assim, imagens que os portenhos não viam desde os tempos das hiperinflações de 1989 e 1990. Diversas famílias organizaram-se para comprar os dólares.Enquanto o marido esperava em uma fila da casa de câmbio, do outro lado da rua, a esposa estava em outra. Através de celulares, comunicavam-se para saber em qual delas a cotação era mais conveniente com o passar dos minutos. Várias famílias até aproveitaram as férias das crianças para colocá-las nessa função de patrulhamento.Além das casas de câmbio, também proliferam os ?arbolitos? (?arvorezinhas?), denominação dada aos vendedores clandestinos de dólares, que caminham pelas ruas do centro oferecendo a moeda americana. Ontem, a polícia deteve quinze ?arbolitos?. Trajados de terno e gravata ou de camiseta e jeans, dezenas de outros continuaram trabalhando após a blitz, embora de forma mais discreta.?Uma disparadinha, sem importância?.? Esta foi a definição dada pelo secretário-geral da presidência da República, Aníbal Fernández, sobre o comportamento que o dólar pode ter nos primeiros dias da flutuação. Segundo ele, o dólar voltará à normalidade a curto prazo ?porque não tem outra opção?.Eduardo Amadeo, porta-voz do presidente Eduardo Duhalde, deu a entender que é preciso ter paciência. Amadeo sustentou que ?não é uma questão de dias para normalizar a situação. Daqui a várias semanas é que a cotação será razoável?. Amadeo afirmou que o Banco Central tem US$ 14 bilhões de reservas para poder enfrentar sem problemas uma corrida às casas de câmbio.O representante do ministério da Economia no BC, Guillermo Nielsen, explicou que ?deve ficar muito claro? que o organismo intervirá quando for necessário. No entanto, negou-se a revelar quando e como isso ocorreria. Nielsen sustentou que existem setores interessados em desestabilizar o governo Duhalde através de uma alta demanda para o dólar.Implicitamente, referiu-se ao ex?presidente Carlos Menem ? o principal inimigo político do presidente Duhalde ? ao afirmar que esses setores pretendem conseguir a dolarização da economia argentina. ?Mas não poderia ser feita uma dolarização, já que não existem dólares suficientes para fazê-la?, disse.O economista Roberto Cachanovsky argumenta que o dinheiro que os argentinos têm hoje no bolso, fora do ?corralito? (denominação popular do semicongelamento de depósitos bancários) é equivalente a 3% do PIB, a mesma proporção que existia em 1989, quando ocorreu a primeira hiperinflação. ?O dólar, para os argentinos, é como a arca de Noé. Todos querem estar em cima da arca para a eventualidade que comece o dilúvio?.Nesta segunda-feira, no início da noite, o governo Duhalde preparava-se para uma reunião com representantes do setores de supermercados e medicamentos. O governo ia pedir a estes setores que contenham uma eventual disparada dos preços. Segundo o subsecretário de Comércio Interior, Silvio Peist, o governo está percebendo ?uma boa disposição entre os empresários da indústria e do comércio para realizar uma trégua de preços, até que o comportamento do mercado de câmbio fique claro?.Peist explicou que a idéia do governo é conseguir uma ?trégua? de preços por 15 dias. Nas últimas duas semanas, registraram-se altas entre 10% e 40% na cesta básica de alimentos. Os remédios fabricados na Argentina tiveram aumentos de 20%, enquanto os importados cresceram mais de 100%.Leia o especial

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