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Dificuldades gregas

Foi de Frankfurt, ou seja, do Banco Central Europeu (BCE) que partiu o golpe. No meio da noite de quarta-feira o BCE anunciou que não aceitará mais os títulos do Estado grego como garantia de suas operações de refinanciamento do principal da dívida. Ou seja, Frankfurt "fechou a torneira" de refinanciamento para a Grécia.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2015 | 02h05

Na quinta feira, na Grécia e nos países do sul da Europa reinava o mal-estar. Há oito dias a questão grega estava no bom caminho. Vitória da extrema-esquerda. E em seguida teve início a turnê dos novos dirigentes gregos (Alexis Tsipras e todos aqueles indivíduos sem gravata) pelas capitais europeias, com firmeza, sorrisos e um grande poder de sedução.

A Europa estava perplexa. Não sabia de que lado deveria tocar esse "objeto não identificado": uma Grécia decidida a permanecer na zona do euro e a não pagar toda a sua enorme dívida ( 300 bilhões).

Dois objetivos incompatíveis. Aliás esta é a opinião dos banqueiros do BCE: estes dois projetos são incompatíveis. Portanto, a Grécia deverá pagar sua dívida.

A chanceler Angela Merkel também é da mesma opinião. O golpe do BCE provavelmente acalmou a chanceler, e tanto é verdade que a explosão desse partido incompreensível em Atenas irritou a chanceler alemã.

Todas as ações que ela tem levado a cabo há cinco anos para salvar a zona do euro, graças às medidas de austeridade (com o risco de asfixiar a Grécia, Espanha, França, etc) são questionadas agora por esse bando de Atenas.

Diversos países europeus olharam com simpatia para Alexis Tsipras. A Holanda, por seu lado, mostrou-se amável tanto com Merkel como com Tsipras. Mas a Itália, Espanha, Portugal e mesmo a Grã-Bretanha concluíram que, na verdade, está na hora de soltar todos os cabrestos, as algemas, os corsets, as couraças, as mordaças, que Angela Merkel impôs ao crescimento europeu.

O pior é que mesmo na Alemanha, este país tão virtuoso, tão apegado à ordem e à austeridade, vozes se levantaram após o triunfo do Syriza em Atenas e sacudiram insolentemente a coroa de Merkel.

Para o jornal berlinense Welt am Sonntag, "se a Alemanha continua a ser o país mais poderoso da Europa, a influência da chanceler tem limites.(...) Diríamos que Merkel está em via de perder o controle dos acontecimentos". E em seguida o jornal acrescenta esta frase extraordinária: "É possível que a política da Europa seja decidida no futuro não tanto em Berlim, mas em Paris. (Hollande deve ter ficado surpreso se leu essa frase no jornal de Berlim. Divina surpresa!).

Mais notável ainda é o artigo do Der Spiegel, de Hamburgo, (de centro-esquerda): "Os últimos cinco dias revelaram da maneira mais sensacional jamais vista, toda a extensão do fiasco da política anticrise de Angela Merkel. A cura de austeridade prescrita por Merkel resultou numa deflação da zona do euro e uma recessão crônica no sul da Europa".

"A consequência deveria ser uma revisão da política anticrise da Alemanha. Ora, após décadas de "ortoliberalismo", não estamos certos de que o governo alemão dará esta guinada no plano político e tampouco no político".

Oferecendo seus conselhos, o Der Spiegel prescreve: "A chanceler tem agora a oportunidade de mudar de posição (como ocorreu no campo nuclear). A opção mais arriscada será persistir na política atual".

"Aqueles que afirmam que a zona do euro sobreviverá sem sofrimento no caso de uma saída da Grécia têm razão, sem dúvida. Mas isso provavelmente terá um efeito cascata tanto no plano político como econômico que chegará até a Itália. Todo o ser racional achará que mudar de política no caso da questão grega será um mal menor. Estamos num momento decisivo, quando devemos escolher entre nossa ideologia e o futuro da moeda europeia."

São apenas dois exemplos dessa nova insolência dos jornais alemães - e portanto da opinião pública alemã no tocante à todo-poderosa chanceler.

Contudo Angela Merkel não carece de munições. Em particular aquelas que o BCE utilizou em Frankfurt com o violento golpe desferido contra os novos dirigentes de Atenas.

Nada está decidido. A batalha continua. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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