Sirli Freitas/Agência RBS
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Dificuldades materiais

Preços das commodities e títulos de mercados emergentes em queda são maus presságios para a economia mundial

The Economist

06 de agosto de 2015 | 02h04

Há cinco anos, dois pontos de vista eram muito compartilhados. O futuro pertencia não às envelhecidas e indolentes economias avançadas, mas aos mercados emergentes. Além disto, essas economias tinham tamanha demanda de matéria-prima que um "superciclo de commodities" estava a caminho e duraria anos.

Os preços das commodities atingiram seu pico em 2011 e desde então caíram implacavelmente. O declínio de mais de 40% até agora indica um enorme mercado em depressão. Se fossem ações falaríamos de calamidade e colapso.

A mídia ocidental em suas análises tende a considerar o declínio dos preços das commodities um fenômeno benigno, como de fato é para países prevalentemente importadores. Mas não é bom para os exportadores de commodities e muitos deles são de mercados emergentes. O que ajuda a explicar porque as ações desses mercados tiveram somente um ano positivo desde 2011 e registraram um desempenho significativamente inferior ao dos países ricos nos últimos anos. O mais recente sinal de inquietação veio da China, onde o índice Xangai Composto registrou uma queda de 8,5% em 27 de julho.

Brasil. O crescimento das economias emergentes deve desacelerar em 2014 pelo quinto ano seguido de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Entre o Brics, Brasil e Rússia verão sua produção declinar este ano, enquanto a da China vem desacelerando. Somente a economia indiana deverá avançar. As economias em desenvolvimento foram impulsionadas na primeira década do século 21 pela rápida expansão da demanda chinesa quando esse país, o mais populoso do mundo, experimentou um boom de investimentos. O que foi ótimo para os exportadores de commodities, pois a China condensa quase a metade da demanda global de metais industriais. Mas a queda dos preços das commodities sugere que a demanda chinesa diminuiu nos últimos anos. E os altos preços cumpriram um papel, criando novas fontes de matéria-prima como petróleo e gás de xisto.

Por outro lado, a China mudou seu setor de manufatura que passou da montagem de componentes no exterior para a criação de produtos acabados fabricados inteiramente no país desde o inicio. E isso afetou outras economias asiáticas. As exportações dos mercados emergentes tiveram uma queda de 14% em relação ao ano passado em termos de dólares. Quanto ao volume continuaram a crescer, mas somente 1,1% de acordo com a Capital Economics. Esse crescimento anêmico está se tornando uma tendência. O comércio mundial, que vinha expandindo mais rápido do que o PIB global antes da crise financeira, nem mesmo vem mantendo o ritmo: no ano passado cresceu 3,2% ao passo que o PIB avançou 3,4%.

Lucros em queda. O boom de investimentos na China também pode ter criado um problema de excesso de capacidade na indústria, o que gerou uma pressão sobre as margens de lucro do setor corporativo. Dados mais recentes mostram que os lucros das indústrias chinesas foram 0,7% menores no primeiro semestre do ano do que no mesmo período de 2014. Os preços ao produtor caíram 4,8%, a uma taxa anualizada, em junho, o quadragésimo mês consecutivo de declínio. O efeito pode se propagar para os concorrentes asiáticos: os índices dos gerentes de compras do setor de manufatura na Indonésia, Coreia do Sul e Taiwan apontam para quedas na produção em junho.

Economia global. A grande dúvida é se essa debilidade diz algo sobre a economia global. O Federal Reserve (banco central dos EUA) estará agindo insensatamente se elevar os juros no fim deste ano, como os mercados concluíram após a reunião do órgão esta semana? Em 9 de julho o FMI reduziu sua previsão para o crescimento global este ano de 3,5% para 3,3%. O que seria pouca coisa inferior aos 3,4% registrados no ano passado, mas assim mesmo seria o mais apático desempenho desde 2009.

Os rendimentos dos títulos governamentais são outro indicador do sentimento econômico. Quando declinam é sinal de que os investidores estão preocupados com as perspectivas de crescimento. Embora os títulos com prazos de dez anos tenham se recuperado em relação às baixas registradas em janeiro eles continuam baixos em relação aos níveis de um ano atrás - meio ponto ou ainda menos no caso da Canadá e de grande parte da Europa.

Nesse cenário, não parece ser o momento mais evidente para que o mais importante banco central do mundo decida um aperto da política monetária. Naturalmente, o Fed se concentra nas condições internas do país, não no ambiente internacional. Mas juros americanos mais altos significarão um dólar mais forte e, portanto, uma política monetária mais rígida no caso dos países que atrelam suas moedas à americana. O que criará um problema para economias com uma grande dívida em dólar. Diversas moedas de mercados emergentes já registram uma desvalorização há anos ou contabilizam baixas recorde.

A esperança é de que os sinais de desaceleração estejam errados. O Fundo Monetário Internacional espera que o crescimento global e o das economias emergentes avance em 2016. Talvez esteja certo. Infelizmente, com frequência o órgão mostrou-se excessivamente otimista no passado.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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