Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Digitalização do mercado de trabalho exigirá habilidades ainda escassas

A mudança está em curso, é verdade, mas não será instantânea; por isso, é crucial aproveitar esta 'trégua' para intensificar a qualificação dos brasileiros

José Pastore*, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 04h00

Com o avanço da vacinação, cresce o número de pessoas que circulam e consomem, o que gera trabalho e emprego. Gradualmente, as atividades remotas e as aulas online estão voltando a ser presenciais, o que faz aumentar o consumo e libera as mães para trabalhar. O Auxílio Brasil de R$ 400,00 ajudará a elevar o poder de compra, o consumo e a oferta de trabalho. O consumo engrossará também pelas pessoas que estão ávidas por uma viagem de férias, por participar de eventos sociais, culturais e esportivos, lotando os parques e restaurantes, como já ocorre. Enfim, os brasileiros estão loucos para voltar aos encontros do cotidiano.

O quadro já está melhorando, tanto no segmento formal quanto no informal, ainda que com salários mais baixos. Em vários setores já falta mão de obra, o que está levando as empresas a acelerar a incorporação de tecnologias. É o caso da profusão do QR Code nos restaurantes; da expansão das compras por internet; da robotização e inteligência artificial em várias atividades.

Não há dúvida, a volta dos serviços será geradora de muitas oportunidades de trabalho ao longo de 2022. As eleições gerais impulsionarão o trabalho temporário, que, aliás, já está bombando.

O resultado só não será melhor por causa da escalada dos juros, do desarranjo das cadeias globais de valor e da desconfiança dos investidores no governo de plantão.

Como sempre, a digitalização destruirá e criará oportunidades de trabalho que requerem habilidades ainda escassas. As escolas profissionais – Senai, Senac, Senar e outras – terão de intensificar a preparação das pessoas, tornando-as capazes de fazer os trabalhos demandados por uma economia que exige profissionais mais qualificados. Hoje, apenas 8% dos atuais trabalhadores passam por escolas profissionais e só 18% concluem cursos superiores, muitos deles de má qualidade. As empresas terão de participar da qualificação indicada de modo contínuo, dando mais atenção aos aprendizes.

Mas não devemos exagerar quanto à demanda por pessoal qualificado. Afinal, 70% dos atuais postos de trabalho estão em setores de baixo conteúdo tecnológico. A mudança está em curso, é verdade, mas não será instantânea. Por isso, é crucial aproveitar esta “trégua” para intensificar a qualificação dos brasileiros.

*PROFESSOR DE RELAÇÕES DO TRABALHO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, É PRESIDENTE DO CONSELHO DE EMPREGO E RELAÇÕES DO TRABALHO DA FECOMERCIO-SP

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