Dilema dos bancos centrais

Se os BCs saírem para o combate implacável da inflação, estimularão as turbulência e os encalhes de investimentos de risco

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2018 | 21h00

A previsão dos analistas tende a se confirmar. A inflação nos Estados Unidos ameaça voltar. O Índice dos Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) de janeiro divulgado nesta quarta-feira repetiu o que acontecera em dezembro: atingiu 0,5% sobre o mês anterior.

Combinada esta com outra informação relevante, o aquecimento do mercado de trabalho dos Estados Unidos, parecem criadas as condições para que os custos de produção e também a inflação avancem e ultrapassem a meta (informal) de inflação com que opera o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que é de 2% ao ano. Em janeiro, a inflação anual já resvalara para 2,1%. (Veja, ainda, o Confira.)

Isso significa que o Fed está sendo chamado a sair para o ataque ao vírus. Isso se faz com retirada de dólares no mercado, no caso por meio da reversão da política adotada desde a crise de 2008, que foi a de injeção de moeda por meio da compra de ativos no mercado.

Desde o início de fevereiro, esse cenário é a principal razão da forte turbulência nos mercados. A alta dos juros tende a provocar deslocamento nas aplicações financeiras, dos ativos de risco (principalmente ações) para ativos de segurança (principalmente títulos do Tesouro dos Estados Unidos).

O Fed e, com ele, os demais grandes bancos centrais têm um dilema pela frente. Se saírem para o combate implacável da inflação, como deles exigido, estarão estimulando não só as turbulências, mas, também, os encalhes de investimentos de risco, exatamente o que combateram com as injeções de moeda. Se não combaterem a inflação, descumprirão sua principal função.

Esse dilema sugere que as funções dos bancos centrais podem ficar comprometidas. Têm de agir, mas têm a ação travada por outros imperativos, um pouco como diz conhecido ditado brasileiro: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.

Alguns analistas já vinham alertando para o que pode ser a raiz do problema: o conceito viciado de inflação que tem de ser atacada pela política de juros.

Hoje, a inflação é medida pelo custo de vida (índices de preços ao consumidor), um cestão de despesas ao varejo feitas pelo consumidor comum. Desse conjunto não fazem parte as aplicações financeiras, embora elas constituam também dispêndios das famílias, que, assim como se abastecem nos supermercados, pagam pela condução e pelos serviços pessoais, também mantêm um patrimônio em fundos de investimento, títulos e ações, para os quais direcionam as sobras de cada mês. Ora, foi justamente esse segmento de ativos que ficou supervalorizado nos dez últimos anos em consequência do despejo de moeda pelos grandes bancos centrais. Se esses preços também entrassem na mensuração da inflação, os bancos centrais já teriam agido para conter a alta.

Daí por que alguns especialistas vêm recomendando que os ativos financeiros também integrem o conjunto de preços a ser monitorado pelos bancos centrais, para efeito da condução de sua política de juros. Como não há a menor possibilidade de mudança imediata no conceito de inflação, o Fed e os grandes bancos centrais terão de conviver com seus grandes dilemas da hora.

CONFIRA:

» Sem espasmos

Embora alta, a inflação (CPI) de 0,5% nos Estados Unidos, em janeiro, não chegou a provocar nova turbulência nos mercados nesta quarta-feira. A principal razão para isso está na medida do núcleo da inflação, que é a evolução dos preços expurgada dos preços da energia e dos alimentos. A evolução do núcleo ficou em 1,8% em relação à posição de janeiro de 2017, a mesma de dezembro passado. Mas os sinais de alerta continuam acesos nos computadores dos analistas e administradores de carteira.

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