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Dilemas

Dados são insumo fundamental a qualquer ação, mas se colhidos sem cuidados podem violar nossa privacidade

Demi Getschko, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 04h00

Não é fácil encontrar a tramontana no ambiente de crescente complexidade em que estamos. Dados são insumo fundamental a qualquer ação, mas se colhidos sem cuidados podem violar nossa privacidade. Sua proteção mereceu uma lei específica e importante e que está a poucos meses de viger. Por outro lado, aplicações necessitam de dados e da experiência humana para melhorar a qualidade do serviço que prestam. A Lei Geral de Proteção de Dados, a exemplo do Marco Civil da Internet, demorou alguns anos para ser editada, e isso pode ser um bom indício. Ao inovar, a legislação deveria sempre ser cautelosa e valer-se do lema do imperador Augusto, “apressa-te devagar!”. Cuidemos para que se mantenha a base legal em que se funda nossa sociedade e que, ao definir a estrutura de direitos do homem, permitiu-lhe escapar da barbárie.

Tensões entre o novo e o já existente são perenes. Chesterton foi bastante feliz em definir conservador como “aquele que busca perpetuar os erros do passado”, e progressista como “aquele que procura produzir erros novos”. 

Permito-me uma analogia com a inteligência artificial, especialmente no “aprendizado de máquina”. Sem discutir a aplicabilidade do conceito de “aprendizado”, haveria duas vertentes principais: sistemas “conservadores”, que aprimoram seu funcionamento ao acumular a experiência humana disponível, e os sistemas “progressistas” que buscam, por inferência independente, gerar novas soluções.

No primeiro caso, podemos exemplificar com a tradução automática, que melhorou bastante ao se valer da base de traduções humanas existentes. Para o segundo, temos os sistemas que “aprendem” sem supervisão humana, e não raramente nos surpreendem pelas escolhas que fazem.

Outro debate corrente é quanto aos “algoritmos” e seu eventual viés. No caso “conservador” é pouco provável haver um viés intencional incluído no algoritmo: ele apenas seguiria o que os dados que recebeu indicam. Mesmo quando aspectos de seu funcionamento geram reservas, talvez devêssemos aceitar que ele reflete os dados que há no domínio amostrado. Adapto aqui uma frase de Vint Cerf sobre a internet: os algoritmos varrem dados e, como espelho, mostram o que lá existe. Se não gostamos do que vemos, não é culpa do espelho. 

A aventura humana nos levou a planar acima das estatísticas e dos dados. Ao esposarmos, por exemplo, a igual dignidade de todos os humanos, a tese não se funda em números ou em “big data”, mas no arcabouço filosófico e moral estabelecido. Não há nem como, nem por que, buscar confirmação numérica, estatística, ou mesmo científica dessa tese.

Bertrand Russell, um cientista filósofo e pacifista, escreveu em 1953 sobre a busca de objetivos pouco sensatos: “Se o objetivo for uma tolice, quanto mais eficientes os meios de que dispomos, pior será. Conhecimento é poder, tanto para o bem quanto para o mal. A menos que os homens cresçam ainda mais em sabedoria, qualquer aumento de conhecimento será apenas aumento da dor”.

Usemos os dados de que dispomos, sem violar a privacidade dos indivíduos, para conhecer melhor o mundo que temos. De novo nas palavras de Bertrand Russell, “sabedoria é, inicialmente, entender o mundo como ele é, e não como gostaríamos que fosse”.

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