Dilemas do 'novo mix'

Observada do alto, a floresta das previsões econômicas para 2012 mostra um padrão razoavelmente homogêneo. O conjunto das projeções, em comparação com 2011, pode ser resumido, de certo modo, em mais do mesmo, se bem que em ritmo diferente. A indicação é de que o arranjo atual dá para o gasto - sobretudo quando se leva em conta o ambiente global turbulento e desfavorável -, embora não reúna os elementos capazes de sustentar uma nova e desejada qualidade de crescimento.

JOSÉ PAULO KUPFER, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h06

Quando, porém, se olham as árvores, a visão que aparece é mais desigual, sinalizando incertezas bem maiores do que poderiam fazer supor os grandes números agregados. O cenário dos exercícios de previsão é o mesmo - nem ruptura nem solução na Europa do euro -, mas o intervalo que acomoda pisos e tetos das projeções de expansão econômica em 2012 se alarga, variando de 2,5% a 4%. Só a distância entre esses extremos já dá uma ideia das divergências sobre o possível comportamento das variáveis embutidas nas projeções. E das incertezas que prevalecem no ambiente econômico.

Talvez a maior dessas divergências se localize no grau de confiança na manutenção pelo governo do chamado "novo mix" de política econômica, inaugurado com o governo Dilma, no qual alívios no lado monetário seriam sustentados por maior austeridade fiscal. Há muitas dúvidas, de fato, sobre a sobrevivência de tal combinação.

São convergentes as expectativas de que o ciclo de corte na taxa básica de juros irá até abril ou maio, assim como convergem os pressupostos de que a meta cheia de superávit primário e o centro da meta de inflação não serão alcançados. Não existe entendimento, contudo, a respeito do nível em que se darão os desvios e a que tempo, eventualmente, ocorrerão mudanças no "novo mix" de política econômica.

Um tanto pela base de comparação elevada e outro tanto pela moderação nas tendências de recuperação da economia, a inflação em 12 meses deverá recuar entre janeiro e abril ou maio, mantendo espaços, no período, para cortes nos juros básicos. Dependendo da evolução da alta de preços, movimento também vinculado aos acontecimentos na economia global, são esperados mais três ou quatro cortes de meio ponto na taxa Selic, levando-a a 9,5% ou 9% nominais ao ano - alguma coisa nas vizinhanças de historicamente baixos 4% em termos reais. Daí em diante, não dá para cravar nenhuma aposta.

As visões mais otimistas projetam manutenção dos juros básicos até o fim do ano, em paralelo a uma inflação também estabilizada em torno de 5,5% (em 12 meses) e expansão econômica mais firme no segundo semestre. Disseminam-se, no entanto, as avaliações de que o Banco Central se verá na contingência de retomar o caminho das elevações na Selic bem antes do fim do ano.

Isso se daria sob a pressão de um aumento acima do anunciado nos gastos públicos, comprometendo na origem as bases do "novo mix" de política econômica. Não só por uma expansão nos gastos de custeio, principalmente nos itens diretamente afetados pelo forte aumento já contratado para o salário mínimo, mas também nos investimentos do governo federal e suas estatais.

Do processamento desses elementos resulta um caldo que não passa pela peneira das promessas oficiais. É praticamente certo que os objetivos fiscais e monetários anunciados pelo governo - superávit primário na meta cheia, inflação no centro da meta, juros reais cadentes e crescimento acima de 4% - não poderão ser alcançados em 2012, se tomados em conjunto e sem mudanças nas combinações de políticas hoje aplicadas.

Se essa constatação for verdadeira, o governo terá de encarar alguns dilemas na gestão do seu jovem "novo mix" de política econômica. O principal deles está atrelado à evolução da demanda agregada em contexto de redução dos juros básicos e crise na economia global. Entre prosseguir no corte dos juros, manter a inflação controlada e estimular o crescimento, a política econômica terá de ceder em alguma combinação desses desejos.

Poder avançar ou ter de frear no meio do caminho, revertendo ou não o "novo mix" da política econômica, ficará na dependência da profundidade do movimento de deflação nos mercados internacionais e do quanto isso afetará os preços domésticos fundamentais. Dependerá também dos rumos que a crise global vier a assumir e da consequente amplitude dos seus canais de contágio. O "novo mix", num resumo da história toda, corre riscos de ter vida curta.

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