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Dilma, a gerente omissa

Tão assustadora quanto a bandalheira no Ministério do Esporte é a demora da presidente Dilma Rousseff em pegar a vassoura, mais uma vez, para avançar na limpeza da administração. Se quisesse, teria tido excelentes motivos para demitir o ministro Orlando Silva há muito tempo. Errou ao mantê-lo, e erra de novo, agora, ao tratar o escândalo da semana como conflito entre um acusador, o policial João Dias Ferreira, e o ministro. Esse confronto é só um episódio a mais de uma longa história de irregularidades, iniciada na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As denúncias divulgadas no fim de semana pela revista Veja acrescentaram detalhes importantes àquela história, mas não surpreenderam.

Rolf Kuntz, jornalista, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2011 | 03h05

A presidente deveria ser mais cuidadosa ao adotar o discurso da presunção da inocência, recitado numa entrevista na África do Sul. Em primeiro lugar, critérios desse tipo nunca foram valorizados pelos petistas, quando estavam na oposição. Acusar sem prova era parte de sua rotina. No poder, acrescentaram a essa especialidade a elaboração de dossiês falsos. Em segundo lugar, e este é o ponto mais importante, sobram evidências, há muito tempo, de graves desmandos na área do Ministério. Não está claro se a presidente ignorava esses fatos ou se os considera irrelevantes.

Qualquer dessas possibilidades é inquietante. A primeira seria um indício de inaceitável desatenção. Como chefe da Casa Civil, no governo anterior, e como presidente, a partir de janeiro de 2011, ela deveria ser sempre atenta aos sinais de problemas na administração. Antes de ser nomeada madrinha do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, a ministra Rousseff já era apresentada como a grande gerente dos investimentos federais. A partir de 2007, quando o Brasil assumiu a tarefa de preparar a Copa do Mundo, ela deveria ter acompanhado de perto o Ministério do Esporte. Na Presidência, teria acertado se levasse em conta novos indícios, muito fortes, de falcatruas com dinheiro manejado pelo ministro Orlando Silva.

O Estado publicou neste ano várias denúncias de irregularidades com verbas fornecidas a entidades vinculadas ao PC do B. O material saiu nas edições de 20, 21 e 23 de fevereiro, 15 de abril e 31 de agosto. Um resumo das histórias apareceu no jornal nesta terça-feira. As matérias mostram fornecimento de verbas a entidades fantasmas e financiamentos destinados a ações nunca realizadas. Ou a presidente não lê jornais, ou o clipping destinado a seu gabinete é censurado, ou talvez ela tenha preferido olhar para outro lado.

Órgãos federais de controle, no entanto, ocuparam-se das irregularidades. Em 15 de abril, o Estado noticiou a promessa do Tribunal de Contas da União (TCU) de investigar os convênios firmados com a ONG Bola pra Frente. A Controladoria-Geral da União (CGU) também se envolveu. De 2006 ao primeiro semestre deste ano, a CGU determinou a devolução de R$ 26,5 milhões aplicados em 67 convênios com problemas, segundo noticiou nessa terça-feira a Folha de S.Paulo. De acordo com nota do Ministério, os pedidos de devolução refletem o trabalho constante de vigilância e a atenção à lei. Só essa piada bastaria para justificar a demissão do ministro e de sua equipe. Que vigilância, quando os órgãos de controle apontam irregularidades em 67 convênios?

A preferência a entidades vinculadas a um partido - no caso, o PC do B - já deveria escandalizar qualquer pessoa com algum senso de decência - ou, no mínimo, habituada às boas maneiras. Esses convênios foram expostos em matérias do Estado e na reportagem da Veja. Além disso, exemplos foram levantados pela organização Contas Abertas, especializada em finanças públicas. De 2006 a 2011, o Instituto de Cultura Ambiental recebeu R$ 5,5 milhões do programa Segundo Tempo. Seu primeiro tesoureiro é filiado ao partido, assim como o presidente do Instituto Contato, contemplado com "mais de R$ 20 milhões" entre 2007 e 2011.

Já seria notável a existência de tantas ONGs especializadas em educação e, de modo especial, em assistência, por meio do esporte, a crianças carentes. Mas notável, mesmo, é o número de entidades especializadas em assistência por meio do esporte e vinculadas ao PC do B. Nenhum desses fatos extraordinários terá jamais feito brilhar uma luz diante dos olhos da presidente Dilma Rousseff?

A briga entre o policial João Dias Ferreira e o ministro Orlando Silva, é bom repetir, é só um dado a mais numa epopeia bandalha. Se a presidente não agiu há mais tempo, foi porque não quis, porque não se escandalizou ou por uma desinformação digna do Guinness. Se não se cuidar, será tragada por esse pântano longamente preparado por seu antecessor. Todas as preocupações de hoje em relação ao custo da Copa do Mundo parecerão ridiculamente pequenas.

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