Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

Dilma deve escapar do impeachment e manter Levy na Fazenda, avalia Mendonça de Barros

Para o ex-ministro das Comunicações, a presidente manterá o ministro da Fazenda porque não tem alternativa; em sua estimativa, sem Levy, o câmbio vai para R$ 5, enquanto a inflação e juros subirão ainda mais

Ricardo Leopoldo, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2015 | 16h43

SÃO PAULO - A presidente Dilma Rousseff conseguirá escapar do impeachment, porque não há prova de que teria cometido malfeitos e também por falta de interesse político do PMDB, avalia o ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros. Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, ele criticou o PSDB por ter apoiado o presidente da Câmara, Eduardo Cunha e defendeu que o partido abandone a bandeira do impedimento de Dilma para adotar "um discurso muito mais abrangente de mudança", para o País.

Para Mendonça de Barros, a presidente Dilma manterá o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, porque não tem alternativa. Em sua estimativa, sem Levy, o câmbio vai para R$ 5, enquanto a inflação e juros subirão ainda mais.

Na avaliação do ex-ministro, o BC "acertou a mão" na administração dos swaps cambiais que ajudam a manter o mercado do dólar funcional numa difícil conjuntura econômica e política. "Eu acredito que a desvalorização do câmbio se esgotou, a não ser que ocorra uma crise grave", disse, estimando em seguida que a cotação média do dólar no segundo semestre de 2016 será de R$ 3,50. Em relação às eleições de 2018, ele pondera que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não será candidato e Aécio Neves será o representante do PSDB. Veja os principais trechos da entrevista:

Como o senhor avalia a possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff? 

Se aparecer alguma prova óbvia contra a presidente, vai ter impeachment. Até agora não apareceu. O STF manifestou várias vezes que ou tem uma coisa acachapante ou não tem essa coisa. O impeachment não é para tirar um presidente que está fraco. Eu acho que o impeachment não é uma probabilidade. É preciso fazer uma análise política. O PMDB não quer assumir o governo agora e não quer o impeachment neste momento. A posição do Eduardo Cunha vem do fígado dele, não é a posição do partido. O PMDB não raciocina assim, são profissionais. Jogaram para frente. Em março, vão avaliar e provavelmente vão jogar para depois das eleições municipais. O PSDB teve o custo de se aliar ao Cunha. Foi um esforço bobo. Porém, esse erro de tentar forçar o impeachment agora não chegará à população. O PSDB deveria criar um discurso muito mais abrangente de mudança.

A presidente Dilma manterá o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em 2016? 

Sim. Não tem alternativa. Caso a Dilma tire o Levy, o mundo cairá em cima dela. O câmbio vai para R$ 5,00. A inflação e juros vão subir mais. Eu acho que a presidente já percebeu isso. O descasamento dela com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um sinal importante. Quando o PT diz que a política econômica tem que mudar, Dilma deixa claro que isso é opinião do partido e não do governo dela. A Dilma tem responsabilidade. Mas ninguém confia nela. Ela não consegue fugir da recessão que estamos vivendo, pois está no meio dela. Eu espero que ela tenha entendido que se voltar à política econômica anterior, termina o governo dela. Além do dólar explodir, as agências de rating vão retirar o que sobra de credibilidade. Já que a presidente não tem a menor condição de reverter a situação da economia no curto prazo, ela está fadada ao arroz com feijão fiscal e político. Se ela entender isso, leva a economia naturalmente, sem a saída do Levy. Ela consegue chegar ao fim do mandato com o mínimo de dignidade.

Como o senhor avalia indicações de que o governo poderá flexibilizar a meta do primário de 0,7% do PIB para 2016? 

LC Mendonça de Barros: Do ponto de vista da análise econômica, a questão fiscal não deveria ter a leitura que o mercado faz. Um País numa recessão que levará à queda de 3% do PIB neste ano tem dificuldade para equilibrar o Orçamento. E isso ocorre porque 90% das despesas federais estão fora do controle do governo.

Mas não é isso que o mercado está olhando, pois seu foco é a estabilidade da dívida pública bruta como proporção do PIB e há uma avaliação de que se continuar a situação fiscal atual a dívida vai para 70%. É um erro do mercado não considerar que haverá uma transição política em 2018, para um governo de centro-direita, e que a questão da estabilidade fiscal terá que ser enfrentada pelo novo presidente e não pela Dilma.

Com uma profunda recessão, primário de 0,7% do PIB em 2016 é impraticável ou é viável? 

LC Mendonça de Barros: Mudou o sinal da política fiscal do governo. Isso, associado à recessão, pode levar a um déficit ou superávit primário pequeno. Esta questão da estabilidade da dívida não será tratada pela presidente Dilma por duas razões: uma delas é que estamos em recessão. A outra é que a estabilidade da dívida exige um horizonte político diferente do que a presidente tem. Como ainda estamos longe de 2018, o mercado não consegue fazer essa ponte. Mas em novembro do ano que vem, após as eleições municipais que devem dar uma tunda no PT e fortalecer as oposições, o que estará no radar de todos será as eleições de 2018.

Mas como o governo tem uma base política frágil, não seria o caso de descartar a CPMF para 2016 e contar com outros tributos, como a elevação da Cide combustíveis? 

A CPMF também vai ser necessária para o próximo governo. A classe política em algum momento será capaz de aprová-la.

Como o senhor avalia a gestão fiscal do ministro Levy e do BC na administração da política cambial? 

LC Mendonça de Barros: Eu acho que o Levy e o BC só cometeram dois erros graves. Um deles foi criar uma expectativa de primário para 2015 que não poderia ser concretizada. Porque com esse nível de queda de atividade não tem receita e a despesa é fixa. O segundo erro foi na gestão do câmbio. Em algum momento lá atrás. quando o Levy começou a ganhar credibilidade, o juro estava alto, entravam recursos no País, o câmbio começou a se valorizar e ficou abaixo de R$ 3,00. Nesse momento, o BC entrou com os swaps cambiais. Mandou uma mensagem para o mercado de que não queria o real apreciado. O BC não deveria ter feito nada. O erro foi intervir criando um piso para a taxa de câmbio.

Sem o impeachment e a permanência de Levy, vai diminuir a depreciação do câmbio em 2016? 

Eu acredito que a desvalorização do câmbio se esgotou, a não ser que ocorra uma crise grave. Isto porque a depreciação foi tão forte neste ano que mudou o sinal das contas externas. Alguns economistas bem mais à direita do que eu têm projeções parecidas com as minhas: superávit comercial de US$ 15 bilhões neste ano, que vai subir para um número entre US$ 35 bilhões e US$ 40 bilhões no próximo ano. E o déficit de transações correntes, que já passou de 4% do PIB, baixará para 2% ou 1,8% do PIB na virada de 2016 para 2017. Se em 2016, houver uma situação política mais calma, o dólar terá um ajuste para baixo. No segundo semestre, a cotação média do dólar deverá ser de R$ 3,50.

Como o senhor avalia que será a postura do BC na gestão da política monetária até o final de 2016? 

LC Mendonça de Barros: Devido ao nível da inflação, o BC não tem como baixar os juros. Mas também não faz sentido o Copom aumentar a Selic porque há uma grande queda da absorção doméstica. Eu não mexeria na Selic nesse período.

E como a política cambial deveria ser administrada? 

LC Mendonça de Barros: Mantém o swap cambial porque estamos num período de crise e há momentos sem liquidez. O fluxo cambial está ligeiramente negativo, às vezes positivo. Não há fuga de capital do País. Os ajustes estão sendo feitos pelo swap, que é um mecanismo estabilizador. O BC acertou a mão na gestão do swap, pois permite o mercado de câmbio ficar funcional. Como o BC tem reservas, não tem prejuízo no swap.

Como o senhor avalia a disputa presidencial de 2018? 

Lula não será candidato. Ele é um sujeito esperto demais para entrar numa bola dividida. E a gente tem que respeitar. O Lula durante muito tempo foi e é considerado um estadista. Ele já tem um espaço na História. Não vai entrar numa eleição para ter 10% de votos.

Lula pressiona a presidente a mudar a política econômica para se fortalecer a ponto de ser candidato em 2018, não? 

O Lula está dizendo: "eu vou me posicionar contra, ela não vai mudar, e com isso eu lá na frente estarei bem." Só que o Lula hoje, mais velho, é o que a gente chama de Malandro Tangerina, que é o malandro que se acha mais malandro que os outros. Mas eu acho que esse discurso dele tem muito menos força do que ele avalia que tem.

Aécio Neves será o candidato do PSDB em 2018? 

Eu acho que sim. Logo após as eleições municipais, na primeira pesquisa presidencial, o Aécio estará na frente.

Porém, depois das eleições municipais de 2016, o senador José Serra não tentará viabilizar sua candidatura para 2018, o que poderia ocorrer inclusive no PMDB? 

O Serra tem a legitimidade e o direito de buscar o espaço dele. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, tem também toda a legitimidade e certamente tem a vontade de ser o candidato. Mas objetivamente, olhando a sociedade, é o Aécio o contraponto da Dilma. 

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