Tasso Marcelo/Estadão
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'Dilma deveria admitir que errou', diz presidente da Firjan

Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira acredita que envio de orçamento com déficit primário joga a responsabilidade sobre o Congresso

Entrevista com

Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, presidente da Firjan

Idiana Tomazelli , O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2015 | 02h02

RIO - O envio pelo governo de um Orçamento que prevê déficit primário em 2016 é uma decisão acertada, pois joga parte da responsabilidade pelas contas públicas sobre o Congresso, diz o presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Qual é o caminho para a retomada da economia?

O problema econômico está dentro de um invólucro mais denso, o problema político. Uma sugestão à presidente da República é que converse com o Congresso, mas não em gabinete. Uma conversa absolutamente desarmada, numa boa, no plenário do Congresso, mostrando o panorama econômico, que não existe milagre para resolver as contas públicas. Não adianta parlamentares venderem apoios por conta de emendas parlamentares porque não tem dinheiro. Talvez a maioria dos membros do Parlamento que faz pressão contra o equilíbrio fiscal não tenha essa compreensão. E isso é fundamental.

A população não tem noção da gravidade da situação?

Não. Estou convencido de que a população e talvez grande parte do Congresso não entendem que governo não cria dinheiro. O papel do governo é recolher parte da riqueza e redistribuir. Não tem milagre.

A presidente ir ao Congresso pode surtir efeito?

Acho que sim. Tenho de partir do pressuposto que a fase é tão aguda que temos de tratar da política do Brasil, do País, e não da política partidária, não da política para ter o Poder.

O que Dilma deveria dizer?

Advogo que diga com tranquilidade que o modelo econômico que ela imaginava não serviu para o Brasil. Ela imaginava que o País pudesse (crescer), que fosse bom, mas foi um desastre. É hora de mudar. E mudar com coragem, não delegar. Isso é uma característica das grandes pessoas, dizer 'errei, agora vou fazer o certo'.

Quais seriam as consequências positivas?

Uma vez que as pessoas entendam, pode ser a oportunidade de ir adiante com coisas que já vêm de muito tempo, tipo a (reforma da) Previdência. Outra coisa que o Executivo precisa ter respaldo e ter coragem para implementar é um plano profundo de privatização. Não temos recursos para as coisas básicas e temos ativos que não precisam ser necessariamente administrados pelo Estado.

O que o sr. acha de o Executivo ter enviado o projeto de Orçamento de 2016 com déficit primário?

Achei muito interessante, porque talvez seja o primeiro passo disso que estou advogando. Minha sugestão é que a presidente vá diretamente conversar, dizer 'temos esse problema, como que vamos resolver isso juntos?'.

Isso jogaria mais responsabilidade sobre o Congresso?

Exatamente. E aí a sociedade vai chamar a atenção também da oposição. Não podemos, por causa de eleições ficar contra isso. Estamos discutindo aqui uma questão de Estado.

Como que fica a discussão sobre um eventual impeachment?

Por que, em vez de tratar desse assunto, não vamos discutir os problemas? As instituições estão funcionando, o Judiciário está aí, os agentes públicos de fiscalização estão trabalhando. Não podemos ficar esperando por alguma coisa que vá acontecer, que não sabemos quando, como e o que exatamente. Minha proposição é que a gente deixe essa discussão de lado. A obrigação primordial dos eleitos é colocar o Brasil num patamar melhor do que o patamar que eles encontraram ao serem eleitos.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, pediu a saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, por causa da possível recriação da CPMF. O sr. concorda?

Sou muito amigo do Paulo (Skaf), Fiesp e Firjan estão trabalhando juntas em várias agendas. Na questão da CPMF, concordo na manifestação, mas o endereço estava errado. O endereço não é o ministro da Fazenda. Levy não queria aumentar imposto. Advoga pela redução do custeio.

Levy defende políticas horizontais (que afetem igualmente todos os setores), mas anunciou condições de crédito diferenciadas para alguns setores. É uma contradição?

Claro que é, mas posso imaginar o ministro subordinado às pessoas das mais variadas. Quando ele anuncia isso, não está nas convicções dele. É um Brasil velho, um modelo que não deu certo, não funciona.

Qual é sua avaliação sobre o ajuste até agora?

O ajuste hoje está muito pálido. O que de fato aconteceu com a redução de custo? O anúncio de que talvez reduza dez ministérios, na ponta do lápis em valor é quase zero. Temos dezenas de milhares de cargos de confiança. Falou-se apenas em mil. O governo despendia, em 2008, 3% do PIB em custeio, hoje é 6% do PIB.

Em 2016, fala-se em nova retração do PIB. Como isso deve causar impacto na indústria?

As indústrias vão tentar sobreviver, evidentemente reduzindo contingente. Teremos aumento do desemprego, torcendo para que a inflação não suba. Eu não estou advogando, pois não sou maluco, juros altos. Mas os juros altos são uma política de curto prazo para consertar a casa. A minha rusga é que eu não estou vendo a casa ser consertada.

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