Dilma e os 70 anos da vitória

Maio de 1945. O Brasil preocupado com a melhor forma de se livrar de Getúlio Vargas e em meio à decolagem para 20 anos de expansão econômica. E com grande admiração pela URSS e pelo seu sacrifício de 26 milhões de vidas para derrotar o nazismo.

MARCELO DE PAIVA ABREU*, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2015 | 02h04

Não é por acaso que Moscou celebra a vitória com entusiasmo. Seguindo a tradição anual, comemorou os 70 anos da vitória com uma espetacular parada militar na Praça Vermelha. Em contraste com anos anteriores, o evento foi boicotado pelos EUA e pelos integrantes da União Europeia em retaliação à política russa quanto à Ucrânia. Os EUA pressionaram ferozmente chefes de Estado recalcitrantes para que não fossem a Moscou, chegando a criar um incidente penoso com o presidente da República Checa. A chanceler alemã, Angela Merkel, tentou remendar os danos da ausência, depositando, no dia seguinte à parada, uma coroa de flores no túmulo do soldado desconhecido, em Moscou. Algo que poderia ter sido feito no memorial de guerra soviético em Treptow, nos subúrbios de Berlim, ou mesmo em Tiergarten, ao lado da Porta de Brandemburgo. Em qualquer caso, há espaço para dúvidas quanto à eficácia de boicotes para gerar uma solução mutuamente aceitável para a crise ucraniana.

As presenças de destaque entre os que compareceram à parada foram os presidentes da China e da Índia. Contingentes militares dos dois países desfilaram. Jacob Zuma, o presidente da África do Sul, também compareceu. Entre os integrantes dos Brics, formado por países que integraram direta ou indiretamente a coalizão vitoriosa em 1945, o único chefe de Estado ausente foi o do Brasil.

Inexplicável a decisão que levou o Brasil a não se fazer presente. Afinal, nisso o País se diferencia dos demais países da América Latina: declarou guerra ao Eixo em 1942 e enviou mais de 25 mil soldados à Itália. Só o México enviou um pequeno número de pilotos para a guerra do Pacífico. A Argentina só declarou guerra à Alemanha em fevereiro de 1945. Não apenas a diplomacia brasileira não explora esse passado virtuoso, como parece conformada com uma participação subsidiária no bloco dos Brics.

A presidente da República perdeu magnífica oportunidade de justificar com decência a ausência da comemoração realizada no monumento aos mortos da 2.ª Guerra Mundial no Rio de Janeiro. Ao preferir uma cerimônia inexpressiva no Palácio do Planalto, a presidente reforçou a interpretação de que estaria, mais uma vez, fugindo de situações que poderiam ensejar protestos.

Não é que a comemoração militar no Rio deixe de suscitar temas espinhosos. A tacanhez que dominou a postura brasileira quanto ao papel da URSS na vitória de 1945 teve inúmeras repercussões ao longo dos últimos 70 anos. A pueril ruptura das relações diplomáticas com a URSS em 1947 marcou um dos piores momentos da história diplomática brasileira. E não é que agora as relações com a Rússia podem ser afetadas pela relutância dos militares brasileiros em erigir um quinto mastro no monumento aos mortos da 2.ª Guerra reconhecendo tardiamente o papel crucial da URSS na vitória? As fraquíssimas explicações para a resistência variam desde a impossibilidade de contornar o veto da diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército até o questionamento da Rússia como herdeira das honras militares da União Soviética.

Se houvesse bom senso em Brasília, Dilma Rousseff teria ido a Moscou com escala em Florença para homenagear os mortos da FEB no cemitério de Pistoia. Na volta, teria instado o ministro da Defesa a, sem delongas, fincar o quinto mastro. E instruiria o Itamaraty a definir estratégia diplomática que abandonasse a deprimente hesitação entre ser ou não ser Bric. Possivelmente aprendendo com os indianos como conciliar a participação no desfile em Moscou em maio com o desfile para Obama no Rajpath em Nova Délhi em janeiro. E sem perder a altivez.

* DOUTOR EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, É PROFESSOR TITULAR NO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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