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Dilma e Trump

Esquerda e direita têm visões divergentes do futuro e as oportunidades são limitadas

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2017 | 05h00

Em quase toda parte do mundo há menos entendimentos políticos. Esquerda e direita têm visões divergentes do futuro e as oportunidades são limitadas até para acordos mínimos. Já não há um centro político em busca de solução mediada de problemas correntes, internos e externos. A preferência é por uma oposição cada vez mais aberta. A Semana Santa não fugiu à regra.

Dilma Rousseff visitou universidades nos EUA na semana passada. Sua mensagem foi direta. Ela foi deposta por um golpe de Estado parlamentar liderado por Michel Temer e o PMDB. Quase todos os outros partidos aderiram. Sua suposta culpa foi a mera existência de restos a pagar acumulados, uma prática regularmente usada por governos anteriores. A continuidade de Dilma no poder, após a eleição apertada em 2014, era o verdadeiro problema. As classes altas – os ricos – estavam reagindo contra os ganhos no salário mínimo e a distribuição de renda mais igual que havia sido alcançada. Elas retardaram o estabelecimento de um Estado maior e eficaz capaz de aumentar os gastos sociais e dar assistência a um setor manufatureiro essencial. O caminho à frente é o do neoliberalismo, um desastre para os pobres, disse.

Trump, ao contrário, permaneceu em casa, mas se beneficiou de seu súbito interesse por uma política externa mais beligerante. Ele se reuniu com o líder chinês Xi Jinping e ofereceu uma política econômica menos hostil em troca de ajuda com o foco contínuo da Coreia do Norte em armas nucleares de longo alcance. Também aprovou o bombardeio de um aeroporto na Síria em resposta a ataques com gás envolvendo mulheres e crianças. E permitiu que seu secretário de Estado admitisse que as relações com os russos – e Putin – estavam no seu ponto mais baixo. E aí veio a megabomba no Afeganistão.

Em parte, Trump ainda está aborrecido por não ter conseguido anular o Obamacare como prometeu reiteradas vezes. Ele está tentando de novo, buscando a adesão de democratas: caso contrário, ameaça cancelar subsídios à saúde para os pobres. A reforma fiscal é ainda mais difícil. Nisso, todos os interesses especiais se destacam em defesa de subsídios implícitos. E as promessas de infraestrutura são inconsistentes com a redução dos gastos públicos prometida pelos conservadores.

Seus projetados 100 dias de enorme progresso doméstico renderam pouco. Os tuítes continuam, e também a crença de que sua arte da negociação inevitavelmente operará para melhorar as vidas de muitos indivíduos das classes médias e quase médias que o elegeram. Diferentemente de Dilma, Trump não teve nenhum boom das commodities nem um vigoroso crescimento econômico antes de chegar à presidência. Expansão rápida é o que ele sempre promete, mas a economia americana já não é um motor de avanço garantido.

Tanto Dilma como Trump tiveram grupos pequenos de conselheiros. Mesmos estes ficaram sujeitos a mudanças quando as diretrizes presidenciais mudaram bruscamente. Cada um acreditava estar sempre com a razão, sempre oferecendo explicações que contrariavam a verdade objetiva. A constante afirmação de Dilma de que os EUA eram a origem da sobrevalorização da taxa de câmbio brasileira equivale aos “fatos alternativos” de Trump. Ambos tiveram problemas regulares no trato com o Congresso, cujos membros se mostraram insatisfeitos com as decisões e a liderança presidencial.

A tarefa de Dilma certamente foi dificultada pela imensa popularidade de seu antecessor, Lula. Portanto, era preciso atribuir as culpas ao neoliberalismo do antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso. A afirmação narcisista de sucesso contínuo de Trump sempre surge em comparação com Obama – que cometeu um erro atrás de outro. Aliás, sem o rótulo “Obamacare”, as questões de saúde já poderiam estar caminhando para uma solução.

No Brasil, o problema de Dilma era a visível aversão às forças do mercado. O Estado sempre sabia mais. Quando uma economia em franca recessão encontrou os crimes da Lava Jato, a descontinuidade da presidente era questão de tempo. Nos EUA, a inesperada eleição de Trump veio de um futuro não promissor para os incapazes de se ajustar a uma economia modernizada. O Brasil agora espera 2018. O mesmo fazem os EUA, onde as eleições parlamentares parecem competir com a declinante popularidade de Trump – isto antes dos recentes envolvimentos internacionais. A democracia ainda traz esperança a um centro progressista./ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

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