Dilma nega mais uma vez crise de energia e diz que falha humana provoca apagões

Presidente rebate críticas de que Brasil corre risco de novo racionamento, apesar de o nível dos reservatórios estar em queda constante

VERA ROSA, TÂNIA MONTEIRO/BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2012 | 02h05

Irritada com os últimos apagões ocorridos no País, a presidente Dilma Rousseff contestou explicações dadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e até por técnicos do Ministério de Minas e Energia e disse que os cortes de luz são provocados por "falha humana", nunca por raios.

"No dia em que falarem para vocês que caiu um raio, gargalhem", afirmou Dilma, ontem, durante café da manhã com jornalistas, no Palácio do Planalto. "Raio cai todo dia nesse País, a toda hora. Raio não pode desligar sistema. Se desligou, é falha humana. Raio é derivado de uma coisa chamada chuva, crucial para o sistema funcionar. Não posso querer que tenha chuva e não tenha raio. A nossa briga é para impedir que, quando o raio cai, o sistema pare."

Para o diretor-geral do ONS, Hermes Chipp, o corte de abastecimento que deixou consumidores de 12 Estados sem energia, no último dia 15, pode ter sido causado por um raio. À época, o secretário de Energia Elétrica do Ministério de Minas e Energia, Ildo Grüdtner, foi na mesma linha. Na quarta-feira, uma pane também provocou novo apagão, desta vez no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.

Dilma admitiu haver outros riscos de interrupção de energia elétrica, mas rejeitou o termo "apagão", alegando que foi usado quando "o Brasil inteiro ficou às escuras", em 2001, porque não havia linhas de transmissão suficientes. "Sem que vocês saibam, deve ter umas 3 mil quedas de energia por ano", afirmou. Na avaliação dela, é preciso ser "implacável" com a falta de luz. "Não podemos aceitar conviver com isso."

Ridículo. A presidente desdenhou comentários de que o Brasil pode ser obrigado a economizar novamente energia, como em 2001, e chegou a falar em má-fé na abordagem do assunto. "Acho ridículo dizer que o Brasil corre risco de racionamento", esbravejou. Com planilhas sobre "descargas elétricas" na mão, Dilma se levantou e, diante dos repórteres, começou a dar uma aula sobre raios e necessidade de proteção do sistema. "No caso de transmissão, somos vítimas eternas e temos de nos preparar", insistiu.

Ex-ministra das Minas e Energia, Dilma também atribuiu a "falha humana" a falta de luz que atingiu o Aeroporto do Galeão. "O sistema elétrico do Galeão inteiro terá de ser trocado. No Rio, sempre que a temperatura passa de 40 (graus), a Light tem problema (ler abaixo)."

Ao garantir que o governo investirá na manutenção da rede, em 2013, Dilma lembrou que, no passado, todos os recursos disponíveis eram destinados somente à transmissão e à geração de energia. "Sem verba você faz o quê? Não tem mágica. Agora, temos dinheiro e voltamos a investir em hidrelétricas", comentou, citando as usinas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira.

Ela usou uma expressão mineira para destacar que o Brasil de hoje é diferente e tem condições para aplicar a verba nessa área. "Estamos saindo (da fase) da mão para a boca", comparou. "Antes, tínhamos baixíssima capacidade de investimento."

As críticas dos especialistas, no entanto, referem-se aos baixos níveis dos reservatórios do País - alguns em situação semelhante ao do racionamento de 2001. No sistema Sudeste/Centro-Oeste, por exemplo, a capacidade de armazenamento das represas está a apenas 1,2 ponto porcentual acima do limite de segurança para o abastecimento do mercado - um mecanismo de alerta criado pelo governo após o racionamento de 2001. O volume de água na usina de Itumbiara, localizada no Rio Paranaíba, entre Itumbiara (GO) e Araporã (MG), está em apenas 9,85%.

No Nordeste, os reservatórios, que em novembro tinham apresentado pequena melhora, voltaram a recuar, para 33,1%. Neste caso, embora o nível esteja acima do verificado no Sudeste/Centro-Oeste, o armazenamento está esbarrando no limite de segurança. Falta apenas 0,6 ponto porcentual para o ONS ligar o sinal de alerta na região. No Sul, a situação é mais confortável: o nível dos reservatórios está 13,2 pontos acima da curva de aversão ao risco. Mas, em todos os casos, os reservatórios precisam ser recuperados para conseguir atravessar mais um ano de consumo.

Falácia. Sem citar diretamente a polêmica travada com o PSDB por causa da redução no preço da conta de luz, Dilma disse ser "uma falácia" a afirmação de que seu governo queria romper contrato com as concessionárias. Empresas de Minas Gerais, São Paulo e Paraná - Estados comandados pelo PSDB -, além de uma estatal de Santa Catarina, recusaram o acordo proposto para diminuição da tarifa em 20,2%, em média, sob o argumento de que o governo queria romper contratos e fazer "cortesia com chapéu alheio". "Esse País não rasga contratos. Isso é uma falácia. Não há nenhuma obrigação de renovação", completou, numa referência ao acordo de energia. /COLABOROU RENÉE PEREIRA

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