Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

'Dilma perdeu forças sociais e precisa mudar agenda'

Para o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a mudança na orientação do segundo mandato de Dilma Rousseff fez com que ela perdesse o apoio de 'forças sociais' e agora o governo precisaria mudar a agenda para alavancar o crescimento

Entrevista com

Luiz Gonzaga Belluzzo

Carla Araújo, Karla Spotorno, Mario Braga, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2015 | 17h23

A mudança na orientação do governo da presidente Dilma Rousseff fez com que ela perdesse o apoio das "forças sociais" que a elegeram e agora o governo precisaria mudar sua agenda para alavancar o crescimento econômico. "As camadas mais frágeis da sociedade perceberam a mudança de orientação do governo. Hoje, manifestam seu desagrado nas pesquisas de opinião", afirmou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

"A desconsideração dos danos causados à economia e à sociedade já provocam a insatisfação dos prejudicados", disse. "O governo precisaria mudar sua agenda, convocar suas bases sociais e discutir políticas capazes de enfrentar a ameaça de falência múltipla dos órgãos da economia", afirmou.

Belluzzo rebateu a ideia de que o ajuste se sustenta em boa parte na credibilidade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e disse que "ela (a credibilidade) parece não fumegar fora dos ambientes frequentados pelos homens do mercado. Quanto à credibilidade junto à população, ela pode ser é averiguada nas pesquisas de opinião recentes", afirmou.

Abaixo você confere a opinião do economista Luiz Gonzaga Belluzzo nessa entrevista de apenas três perguntas dentro da série especial do Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, sobre os cem dias do governo Dilma 2.

Qual o principal avanço e o principal retrocesso nesses Cem Dias de Dilma 2?

O maior retrocesso é a diáspora das forças sociais que elegeram a presidente Dilma. Promovidas à cidadania econômica e aspirantes à cidadania da cultura e da compreensão, as camadas mais frágeis da sociedade perceberam a mudança de orientação do governo. Hoje, manifestam seu desagrado nas pesquisas de opinião.

A debilidade social do governo encontra resposta no fortalecimento de ilustres, sagazes e respeitáveis figuras da chamada "base aliada". A isso se juntam os efeitos econômicos e sociais da Operação Lava Jato. É dever do poder público buscar soluções que penalizem corruptos e corruptores, preservem as organizações empresariais mediante mudanças no controle das empresas e evitem contaminar os balanços dos bancos financiadores.

A diáspora e a teimosia jurídica tornam ainda mais arriscada a execução da política econômica do ajuste. Mas nos modelos dos macroeconomistas e nas conjeturas dos modernosos "operadores do direito" não há homens e mulheres desempregados, grandes, pequenas e médias empresas quebradas, crianças sem escola e hospitais sem recursos. Trata-se simplesmente de atingir o superávit primário prometido, levar a inflação à meta ou obedecer ao clamor das ruas. A desconsideração dos danos causados à economia e a sociedade já provocam a insatisfação dos prejudicados.


Nesses cem dias, o sucesso do ajuste fiscal dependeu, principalmente, da credibilidade no ministro da Fazenda. Como o senhor acredita que será daqui para frente?

Credibilidade? Ela parece não fumegar fora dos ambientes frequentados pelos homens do mercado. Quanto à credibilidade junto à população, ela pode ser é averiguada nas pesquisas de opinião recentes. A pergunta revela o caráter mesquinho e limitado do debate econômico no Brasil, concentrado nas políticas macroeconômicas de curto-prazo.

A mesquinharia está assentada na pobreza das indagações e na miséria dos pressupostos. A economia brasileira entrou em declínio "estrutural" desde a crise da divida externa deflagrada nos anos 80 do século passado.

Depois de liderar - até meados dos anos 70 - a "perseguição" industrial entre os países ditos periféricos, com forte atração de investimento direto verdadeiro, o Brasil caiu para a Série B do torneio global das economias hoje "emergentes".

A vitória do Plano Real sobre a hiperinflação reprimida foi, de fato, muito importante. Mas, a execução do plano apresentou uma conta salgada. Nos anos 90, os juros reais médios de 24% ao ano e a valorização cambial, aliados à abertura descuidada e primitiva, deram início à cerimônia de extrema-unção da indústria brasileira, a infeliz que até hoje agoniza. Entre outras desgraças, a desditosa foi atropelada pela escalada chinesa, promovida, é claro, por políticas "erradas" e voluntaristas.

A pretexto de abrir a economia para participar da série A do jogo global, os Malans, Francos, Paloccis e Meirelles, para não falar dos figurantes menores, expulsaram o investimento nacional e estrangeiro na manufatura e lançaram os "canarinhos" na segunda divisão. Conseguiram a proeza da integração que desintegra.

O que o governo precisa fazer neste ano para alavancar o crescimento econômico a partir de 2016?

O governo precisaria mudar sua agenda, convocar suas bases sociais e discutir políticas capazes de enfrentar a ameaça de falência múltipla dos órgãos da economia.

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