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Gabriela Bilo/Estadão
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'Dilma precisa fazer o ajuste acontecer'

Para Schwartsman, presidente ainda resiste ao ajuste fiscal e a reformas na economia

Entrevista com

Alexandre Schwartsman, economista e ex-diretor do Banco Central

Alexa Salomão e Ricardo Grinbaum, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2015 | 03h00

Fazendo um paralelo entre o Brasil do início dos anos 2000, quando ingressou na diretoria do Banco Central, e o País hoje, o economista Alexandre Schwartsman está mais tranquilo em relação ao câmbio. Não acredita que a o dólar possa bater em R$ 4, como ocorreu às vésperas da vitória do PT, em 2002. 

Ele se mostra mais preocupado com a inflação, que agora vai exigir medidas mais duras e adiar a retomada do crescimento. Apesar de lá atrás a inflação ser quase o dobro da atual, a solução do problema era mais simples. "Foi resolvida a partir do momento em que se mostrava que o governo sabia comer de garfo e faca: não era um bando de bárbaros que estavam tomando o governo", lembra.

Conhecido pelo tom ácido e objetivo de suas análises, ele não poupa críticas aos que, na sua avaliação, "cuidadosamente" levaram à piora do cenário econômico, especialmente a presidente Dilma. "(A questão) é se a presidente vai sair da posição em que está e fazer alguma coisa para esse negócio (o ajuste) acontecer. Ela não tem feito rigorosamente nada."



A seguir, os principais trechos da entrevista:

Há clima para fazer o ajuste fiscal?

Está ficando claro que o Joaquim Levy (ministro da Fazenda) não vai conseguir tudo que queria, 1,2% (em proporção ao Produto Interno Bruto). Tem alguma coisa como R$ 24 bilhões que dependem do Congresso. Com o clima que temos hoje, não fará tudo. Mas há um forte grau de certeza de que vamos ter alguma melhora nas contas primárias. 

Menos quanto?

Algo como 0,7% ou 0,8% do PIB. Mas, se ele conseguir fazer dois terços do que quer, é um sucesso. Primeiro, ele saiu mais atrás do que imaginava. Ficou algo como 30 metros atrás da linha de partida que inicialmente esperava. O déficit do ano passado foi muito maior do que o previsto. Agora, a arrecadação está vindo mais fraca do que se imaginava. 

Se perceber que não vai cumprir a meta, seria o caso de revê-la ou mesmo que cumpra menos do que prometeu será o suficiente para dar mais credibilidade às contas públicas?

Jogar a toalha agora seria pior. Ele ainda tem a credibilidade de estar tentando. Mas a questão não é se o Joaquim vai ou não entregar a meta. É se a presidente vai sair da posição em que está – confortavelmente escondida atrás do Joaquim – e fazer alguma coisa para esse negócio acontecer. Ela não tem feito rigorosamente nada. Se o custo dessa política ficar muito elevado, ela pode, no balanço das coisas, dizer: ‘não, isso não vale a pena fazer. Joaquim, obrigada e tchau’. Isso é muito mais grave do que ter ou não um número perto ou não de 1,2%. 

Quando ela esboçou apoio ao ajuste, provocou uma reação contrária muito forte. O fato de o Levy liderar o processo não é até melhor neste momento?

O problema é que ela não assume os erros. Fez um discurso pedindo paciência, jogando a culpa no resto do mundo. É óbvio que a culpa não é do resto do mundo. A culpa está relacionada ao padrão de política econômica que vigorou nos últimos quatro anos. Quem manda e sempre mandou no governo é a presidente da República. Aquele negócio veio dela, da cabeça dela. O fracasso da nova matriz – o crescimento baixo, a inflação elevada e o desequilíbrio externo – não foi uma coisa que caiu do céu sobre o Brasil. Foi cuidadosamente produzida aqui. Agora a presidente, em momento algum, vai a público para dizer: erramos e vamos corrigir. Fala do mundo. Mas desculpe. De 2011 para cá, o mundo melhorou. Conclusão: ela não se arrependeu do que fez. Não esqueceu nada e não aprendeu nada: é a nossa presidente Bourbon (numa alusão à dinastia Bourbon, derrubada pela Revolução Francesa, que, segundo se dizia, não esqueceu nada e nunca aprendeu nada). 

Piora quando a presidente chama a atenção do ministro em público, como quando Levy criticou a desoneração da folha de pagamento?

Neste ponto, parece que foi até um bom sinal. Pelo que dizem da presidente, em condições normais, ela teria rasgado a garganta do Joaquim com os dentes. Ele conseguiu sair disso só com um tapinha na mão. Isso mostra que o prestígio dele está relativamente elevado. Quando ele chamou a desoneração de "brincadeira", chutou o balde. Mas, apesar de ser uma mera força de expressão, é a pura verdade. Dizer que a política econômica do Mantega foi "grosseira" é um julgamento de valor – aliás, um julgamento de valor absolutamente correto. A política do Mantega foi grosseira mesmo. 

Eles estão revertendo toda a ‘nova matriz econômica?

Algumas coisas sim, outras não. Estamos vendo um esforço para reconstruir o superávit primário. O Banco Central está menos intervencionista. Mas o padrão de intervenção do governo na economia não parece ter sido revertido. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) recebeu um aporte no fim do ano passado e ainda está fazendo política industrial. O governo abriu mão de intervir nos preços dos combustíveis mais por necessidade do que por convicção. Não parece nem um pouco preparado, por exemplo, para mudar o modelo de exploração de gás e petróleo, mesmo com a Petrobrás como está. No que se refere ao micro, ainda temos um governo pesadamente intervencionista. O que o Levy está fazendo hoje é, basicamente, um conjunto de medidas para recuperar a credibilidade. Mas não vai entregar crescimento. 

Com o 0,7% de superávit primário que o sr. mencionou, dá para escapar do rebaixamento?

É uma certeza que vamos ser rebaixados. Mas não é uma certeza de que vamos perder o grau de investimento. É uma probabilidade considerável.

A situação do Congresso, com vários parlamentares envolvidos na Lava Jato, piora o cenário?

Sim, e em várias dimensões. Com um Congresso neste estado é complicado passar qualquer coisa. O governo não está conduzindo o processo. É conduzido. Falta articulação política. Falta gente com disposição e talento para a coisa. Não é a presidente da República. Não é o Aloizio Mercadante (ministro-chefe da Casa Civil). Não é Pepe Vargas (ministro de Relações Institucionais) porque ninguém sabe quem é Pepe Vargas. Se eu tomar um café do lado dele, não vou saber quem é. Isso pode afetar muito mais o julgamento de uma empresa de rating do que o número do primário. 

A Dilma disse durante a campanha que não iria mexer em benefícios sociais, mas acabou mexendo. Mexeu no seguro-desemprego... 

É só uma correção de excessos, mas não é visto como porque ela quebrou promessas de campanha. 

Existe a alternativa de não mexer em direitos sociais?

Existe. Você pode não fazer nada. Mas vai ter custos. A estimativa é que a mudança no seguro-desemprego traga R$ 18 bilhões por ano. Isso significa 0,2% a 0,3% de superávit por ano. Se não for aí, vai ter de buscar em outro lugar. O ponto é: como um país com taxas menores de desemprego gasta cada vez mais com seguro-desemprego? Tem alguma coisa profundamente equivocada no desenho disso. Não quis mexer antes: tinha eleição, não quis dar o braço a torcer, ir contra seria como fazer uma articulação da direita. Você fica seis meses acusando o teu adversário de querer mexer em direito trabalhista, depois você mesmo vai lá e faz. Quer a compreensão da população, sem explicar o que aconteceu. Fica difícil.

O sr. mencionou a inflação. Há risco de ela sair do controle?

Já saiu. Quando digo isso, não significa que estamos num ambiente hiperinflacionário. Mas, para explicar: a última vez que vimos a inflação na meta foi em 2009. Meu filho estava no colegial. Agora, está no mestrado. Faz tempo. Este ano, vai ficar na vizinhança de 8,5%. São dois pontos acima do limite máximo da meta. São quatro pontos acima do centro da meta. 

O que Banco Central deveria fazer que o sr. voltasse a acreditar nele?

Subir o juro o quanto tiver que subir. Vai precisar de 16%? Vamos a 16%. Faz o que for preciso. Nós fizemos. 

E como fica o crescimento? 

É o custo. Você acha que, se eu buscasse uma inflação mais alta, teria um custo menor de crescimento? No curto prazo, é verdade. No longo prazo, não. Nós estamos vivendo o longo prazo agora. Vivemos agora as consequências de o Banco Central, quando teve a oportunidade de fazer o ajuste de taxa de juros, não ter feito. Foi a decisão em 2011: não fazer porque havia uma recessão global. 

O sr. está dizendo que, se o Banco Central fosse mais agressivo lá atrás, o País não estaria com a inflação assim hoje?

Sem dúvida. Se tivesse feito a lição de casa e perseguido a missão dele lá atrás, o problema seria outro. E, se não fizer hoje a lição de casa, em dois ou três anos os custos para baixar a inflação vão ser maiores ainda. 

Qual será o efeito do câmbio? O dólar poder ir a R$ 4?

Acho que não vai a R$ 4 por bons motivos. No começo do século passado, o grosso da dívida brasileira era denominado em moeda estrangeira. Não é a situação hoje. O governo é credor líquido em moeda estrangeira. Não vejo dinâmicas explosivas de taxa de câmbio. 

Quando a Dilma chamou o Levy, muita gente lembrou do ajuste de 2003, quando o Brasil voltou a crescer em dois anos...

Foi menos de um ano. Acho que agora a situação é mais grave. Lá atrás a inflação de 17% estava muito associada à desvalorização da moeda por um lado e, de outro, você não saber qual seria o regime monetário e fiscal do País no governo Lula. Mas saiu o Armínio Fraga e a equipe foi mantida. Teve um colaboração bastante relevante, o aperto fiscal e a sinalização de reformas. No começo de 2003, o Lula passou a reforma previdenciária do funcionalismo. Mostrou que estava disposto a se machucar e a machucar a base de apoio político. Foi uma sinalização muito poderosa. Não há nenhuma sinalização equivalente com Dilma. A inflação era alta lá atrás, mas conseguia ser resolvida no momento em que se mostrava que o governo sabia comer de garfo e faca: não era um bando de bárbaros que estavam tomando o governo. As pessoas podiam pensar diferente, mas estavam ali fazendo coisas razoáveis. 

O horizonte para 2017 e 2018, então, não é tão alentador?

O ajuste de 2015 vai se estender por 2016. As expectativas de recuperação vão ser empurradas lá para frente, para 2017. 

Com um crescimento de quanto?

Não vou chutar um número, porque a gente ainda não tem a nova série do PIB, mas ele será, assim, pequenininho.

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