Dilma quer meta para dívida

Compromisso maior da candidata é reduzir o endividamento em relação ao PIB

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

A grande preocupação da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, é assegurar aos investidores seu comprometimento com a austeridade fiscal, área que é vista como a mais frágil pelo mercado financeiro. A petista pretende assumir uma meta de redução de endividamento em relação ao PIB, além de metas de inflação mais ambiciosas do que as atuais.

Em maio, quando Dilma participou de evento organizado pela BM&FBovespa em Nova York, ela falou sobre a meta de manter o superávit primário em pelo menos 3,3% do PIB, nível que traria a dívida pública líquida para a razão de 30% do PIB, dos atuais 42%. "É um compromisso fiscal muito forte, porque Dilma vai se comprometer com um nível de endividamento, além da meta de superávit", disse ao Estado o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, coordenador da campanha de Dilma.

Segundo Palocci, Dilma pretende também assumir metas de inflação ainda mais ambiciosas do que os atuais 4,5% ao ano. "Podemos assumir o compromisso de uma meta de inflação mais ambiciosa, sem um maior custo de política monetária - as condições estão dadas para, gradualmente, baixar a meta de inflação."

Na equipe de Dilma, Nelson Barbosa, secretário de Política Econômica da Fazenda, e Palocci são os nomes mais ouvidos em temas econômicos, além de Alessandro Teixeira, presidente licenciado da Apex, que é coordenador executivo do programa da candidata.

Outro alvo de críticas, o BNDES deve ter ajustes. O ex-ministro da Fazenda afirma que o banco vai reduzir sua atuação nos financiamentos e ganhar maior participação do setor privado nas concessões de crédito. "O BNDES não vai manter a expansão dos financiamentos, que foi requisito da crise", diz Palocci. "Temos de passar para um modelo em que o governo tenha uma parcela menor nos financiamentos, e a parcela privada aumente. Vamos fomentar parcerias com fundos privados de infraestrutura, captar capitais financeiros para os financiamentos do BNDES." O crescimento do orçamento do BNDES, com capitalizações e consequente endividamento do Tesouro, tem sido questionado.

O aumento dos gastos do governo é outra crítica. Integrantes do governo justificam o aumento do Estado dizendo que era necessário "requalificar" o setor público. "Nossa candidata sempre dá o exemplo de quando chegou ao Ministério de Minas e Energia. Ela tinha 20 motoristas para um engenheiro. Precisamos de gente qualificada no setor público, advogamos um Estado eficiente, não estamos discutindo tamanho do Estado", disse Alessandro Teixeira.

Palocci diz que esse ciclo pode ter sido concluído e não vê continuidade no aumento da folha de funcionários do governo. "Já foi feito um reaparelhamento mínimo do Estado." Mas não se toca no assunto da reforma da Previdência - o aumento de gastos da Previdência Social é um dos maiores responsáveis pelo inchaço do Estado.

De modo geral, a ordem é manter o tripé metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário, e só ajustar a rota. "As linhas gerais se mantêm, o processo macroeconômico será melhorado e consolidado", diz Palocci. "Trata-se de dobrar a aposta." Segundo ele, haveria só "ajustes finos na política fiscal, monetária e tributária".

Segundo uma fonte próxima a Dilma, a candidata teria afirmado que a linha do Banco Central seria "idêntica" em seu eventual governo - o BC seria comandado por uma pessoa de mercado, com perfil muito semelhante ao atual, mantendo a autonomia da autarquia. "Dilma disse que manteria exatamente o mesmo perfil no BC, e talvez até o mesmo presidente", diz a fonte. O déficit em conta corrente, que deve atingir 2,5% do PIB este ano, não é visto com preocupação pela campanha. "O déficit é decorrente da pujança do mercado interno, mas é sustentável."

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