Dilma recorre a ministros para acalmar Levy

Wagner e Berzoini tentaram convencer titular da Fazenda de que redução da meta era necessária e saída dele pioraria situação do País

Tânia Monteiro e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2015 | 07h51

BRASÍLIA - Em meio à piora no cenário político, depois que a Polícia Federal desencadeou uma nova operação na qual fez buscas e apreensões nas casas do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e de dois ministros do PMDB, a presidente Dilma Rousseff precisou ontem contornar outra crise, com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O ministro havia ameaçado deixar o governo caso a meta para as contas públicas de 2016 ficasse abaixo de 0,7% do PIB. Ontem, Dilma decidiu propor ao Congresso uma meta entre 0 e 0,5% do PIB.

Pelo menos dois ministros – Jaques Wagner, da Casa Civil, e Ricardo Berzoini, da Secretaria de Governo – conversaram com Levy para tentar convencê-lo a aceitar a mudança da meta fiscal de 2016, com o argumento de que a presidente teve de ceder à pressão política. Wagner e Berzoini tentaram mostrar a Levy que a mudança na previsão de superávit primário era fundamental dada a situação delicada que Dilma enfrenta no Congresso, que poderá levar ao seu impeachment.

À noite, o Palácio do Planalto informava que, pelo menos por enquanto, Levy “não fará nenhum movimento de saída”. O Planalto tentava mostrar ao ministro da Fazenda que “não era momento para nenhum gesto” que piorasse a situação do governo e do País, uma vez que a saída dele seria um passo definitivo em direção a um novo rebaixamento do Brasil pelas agências de classificação de risco.

A reunião da Junta Orçamentária (ministros da Fazenda, Planejamento e Casa Civil) que estava prevista para ser realizada à tarde, para fechar a redução da meta, acabou não acontecendo. De acordo com interlocutores do Planalto, Levy não foi surpreendido porque os números já tinham sido vazados, propositalmente, no dia anterior.

As conversas para convencer Levy a aceitar a redução da meta aconteceram na hora do almoço, enquanto o anúncio da decisão, ocorreu no fim da tarde, depois de Dilma ter falado com o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, no Planalto. Barbosa defende a proposta de redução na meta.

Há alguns dias, Levy disse a integrantes da Comissão Mista de Orçamento (CMO), que estaria “fora do governo”, caso isso acontecesse.

Ontem à noite, o ministro se reuniu com a sua equipe. E para mostrar que seguia trabalhando normalmente mandou distribuir depois das 22h30 nota oficial sobre encontro com o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung. Sua assessoria também divulgou que a sua agenda para hoje estava sendo preparada normalmente.

Uma fonte próxima à presidente Dilma avaliou que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, “fica onde está”, apesar dele ter elevado o tom das críticas ontem. A fonte interpretou que o ministro mandou “um recado” para o mercado por meio da presidente da Comissão Mista de Orçamento (CMO), senadora Rose de Freitas (PMDB-ES). Depois da reunião com ele no Ministério da Fazenda, Rose afirmou que Levy não havia participado de nenhuma reunião sobre a alteração da meta.

Ponte para o rebaixamento. Na equipe do ministro Levy, o clima é de desânimo com mais essa derrota e a mudança da meta é vista como um “grande problema” para o País, que trará resultados nos próximos três anos. “É uma ponte para a perda do segundo grau de investimento”, resumiu um integrante do Ministério da Fazenda numa referência ao programa econômico apresentado pelo PMDB. Uma importante liderança do governo disse acreditar que Levy pode sair depois que a mudança da meta for aprovada pelo Congresso.

Segundo o líder, o governo deve conseguir aprovar a meta de 0,5%, mas não os abatimentos previstos na proposta, que levariam o resultado para zero. “A meta de 0,5% é consenso. Mas tem muita gente que não quer o abatimento.”

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