Dinamarca e Holanda são principais entusiastas

Cerca de 30 empresas dinamarquesas já adotaram a iniciativa; governo holandês também é adepto do C2C

O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2014 | 02h04

Na Dinamarca, cerca de 30 grandes empresas já se comprometeram com o princípio C2C (Cradle-to-Cradle, ou do berço-ao-berço, conceito que supõe o reaproveitamento integral dos materiais usados num processo industrial no início de um novo ciclo).

A Nike produz tênis C2C, e a clássica cadeira Aeron de Herman Miller é quase inteiramente reciclável. A ideia pegou até na China, onde a Goodbaby, maior fabricante mundial de carrinhos de bebê e assentos para crianças (Maxi-Cosi) vende uma coleção especial com certificação C2C.

Mas em nenhum outro lugar há tanta empolgação com C2C do que na Holanda. O químico Michael Braungart aconselha o governo holandês e, desde 2010, todo o programa de compras públicas do país tem se baseado em critérios de sustentabilidade. Uma área do Aeroporto Schipol, em Amsterdã, está sendo desenvolvida segundo os critérios C2C. A feira internacional de jardins Floriade foi baseada inteiramente no lema C2C, com os principais edifícios, restaurantes e instalações sanitárias gerando sua própria energia. Talheres, pratos e até papel higiênico eram C2C.

Stef Kranendjik, ex-executivo sênior da fabricante de produtos de consumo Procter & Gamble, descobriu Braungart muitos anos atrás. Dono da Desso, uma empresa holandesa que fabrica carpetes e pisos para instalações atléticas, Kranendjik se inspirou para reconstruir a companhia segundo critérios C2C. O processo começou com a busca de materiais não tóxicos e fios recicláveis.

A companhia aumentou seu consumo de energia verde para 50% do consumo total de energia. A Desso também encontrou uma cola não tóxica que podia ser removida. Desde então, os desenvolvedores da Desso criaram o Airmaster, um carpete que usa bactérias especiais para purificar o ar e absorver poeira fina. A companhia verde também fabrica a grama artificial dos carpetes usados em navios de cruzeiro. "A Desso teve um crescimento de 20% na receita", diz Kranendjik.

A indústria alemã, no entanto, ainda luta contra o conceito de Braungart, apesar de suas histórias de sucesso. Segundo ele, isso é consequência de uma "visão romantizada da natureza". "Somos muito bons em melhorar ao máximo a coisa errada", diz Braungart. Ademais, acrescenta, as companhias alemãs ganham muito dinheiro exportando plantas de incineração de lixo para o resto do mundo.

Durante anos, a carreira de Michael Braungart foi limitada por alguém muito próximo dele: sua mulher. Monika Griefahn, ex-ministra do meio ambiente do Partido Verde na Baixa Saxônia, com frequência enfrentou acusações de privilegiar seu marido e seu trabalho. Ela já tentou nomeá-lo para uma comissão de especialistas, e depois apoiou o envolvimento dele na Expo Hannover, a Feira Mundial, de 2000. Quando isso quase custou o emprego da mulher, Braungart reduziu sua exposição na Alemanha. Ele só voltou à ofensiva desde que ela se retirou da política, em 2012.

Na primavera alemã, representantes do setor de construção e imobiliário participaram do primeiro Cradle to Cradle Forum na Schloss Solitude, em Stuttgart. A lista de participantes mostra o quanto líderes empresariais superaram suas reservas. Audi e BMW estavam lá, assim como Carl Zeiss, Siemens, Bosch, Lindner, Knauf Gips e a fabricante de freios Knorr Bremse.

Christianne Benner, membro da diretoria do sindicato de metalúrgicos IG Metall, vê o C2C como uma grande oportunidade para a economia alemã. Em vez de tentar competir com países que pagam salários baixos, argumenta, a Alemanha deve se tornar a líder inovadora em reconstrução ambiental. Para introduzir a ideia de Braungart a seus engenheiros, ela fez do C2C o principal tópico de uma reunião anual há dois anos.

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