OMAR PAIXÃO/DIVULGAÇÃO
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Inflação ficou mais desafiadora para o Banco Central, diz diretor do BNP Paribas

Para Gustavo Arruda, responsável pela área de pesquisas para a América Latina do banco francês no Brasil, o Copom deve elevar a taxa de juros em 1 ponto porcentual nesta quarta-feira, e a previsão é que a Selic termine o ano em 7,5%

Maria Regina Silva, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2021 | 10h00
Atualizado 05 de agosto de 2021 | 12h40

A tarefa do Banco Central (BC) de controlar a inflação em meio a riscos que parecem temporários, mas que estão aparecendo na "hora errada", não deve ser fácil. Assim, a principal mensagem do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira, 4, deve ser a de que o País está suscetível a choques, mas que é preciso ter confiança institucional de que, assim como a inflação vem, também vai. Essa é a avaliação de Gustavo Arruda, diretor de pesquisas para a América Latina do banco francês BNP Paribas no Brasil, em entrevista ao Estadão/Broadcast

Segundo Arruda, a dinâmica da inflação ficou mais desafiadora. Na semana passada, o banco elevou sua projeção para a Selic, a taxa básica de juros, de 6,50% para 7,50% no fim deste ano. Além de estimar um aumento de 1 ponto porcentual no juro básico nesta quarta-feira, para 5,25%, o BNP Paribas espera outra elevação de 1 ponto em setembro, seguida de aumento de 0,75 ponto em outubro e de 0,50 ponto em dezembro. Para 2022, a expectativa do BNP Paribas para a Selic subiu de 7,5% para 8,5%. 

“Tem um monte de coisas ocorrendo que parecem temporárias, mas que estão vindo na hora errada, como as geadas e os reajustes de energia, que pressionam a inflação. Criou-se um ambiente de riscos adicionais. A melhor opção é o BC indicar até onde vai o aumento do juro e passar a informar, deixar mais explícita essa ideia”, diz Arruda. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Muitas instituições alteraram as estimativas de alta da Selic para 1 ponto porcentual. Quais sinais reforçam que o Banco Central elevará o juro de 4,25% para 5,25%?

Acreditamos que dará 1 ponto (de aumento). Algumas coisas aconteceram entre a reunião do Copom de junho e a de agosto que explicam esse movimento. O BC abriu a possibilidade dessa alta. Dificilmente o mercado estaria errado com essa convicção. O ambiente está pior para a inflação agora do que na reunião anterior.

Em tese, esta tende a ser uma decisão fácil para o Banco Central?

É uma situação desconfortável para quem está conduzindo, com o desafio de aterrissar essa inflação. A atividade está melhor do que o esperado. Se por um lado, o crescimento é positivo, é preciso entender as consequências para a inflação. O hiato (do Produto Interno Bruto, a diferença entre o potencial de crescimento da economia e o aumento efetivamente verificado) está com jeito de que irá fechar mais rápido, e a vacinação está indo super bem. A economia vai reabrir. A dinâmica da inflação ficou mais desafiadora.

Em meio a este desafio de conter as pressões inflacionárias, o BC deve promover um ajuste da Selic maior do que o previsto anteriormente?

Ficou mais incerto para onde o BC tem de ir e menos claro. Tem um monte de coisas ocorrendo que parecem temporárias, mas que estão vindo na hora errada como as geadas e os reajustes de energia, que pressionam a inflação. Criou-se um ambiente de riscos adicionais. A melhor opção é indicar até onde vai o aumento do juro e passar a informar, deixar mais explícita essa ideia. O discurso sobre a decisão em si poderia ter uma ênfase menor, podendo até tirar do comunicado a parte sobre atingir um nível neutro da taxa de juros (mais alinhada à inflação) e focar na estabilização da inflação no horizonte relevante.

Se o Copom promover uma alta menor da Selic, de 0,75 ponto porcentual, por exemplo, a credibilidade seria afetada?

Se a decisão for de 0,75 ponto percentual, o mercado ficaria surpreso, o câmbio sofreria, mas não afetaria a credibilidade. O Copom teria de explicar bem o motivo, pois a percepção geral é de que o BC indicou que pode dar um aumento de 1 ponto. Olhando o ambiente de lá para cá [entre a reunião do Copom de junho e a de agora], tudo o que justificaria uma alta de 1 ponto está aí. Só faz sentido acelerar se a percepção do ciclo for maior. Por isso, quando atualizamos as projeções, o entendimento é de que dará alta de 1 ponto. Um ciclo de aumento maior e mais forte é suficiente para manter a inflação ao redor da meta. Se preferir menos, a inflação terá de ser mais alta.

Qual deve ser a principal mensagem do Banco Central?

O importante será a dinâmica daqui para frente. A mensagem é que estamos suscetíveis a choques. É importante ter a confiança institucional de que a inflação vai e volta. O BC tem de garantir que vai voltar. Pelo Focus, vemos que o Banco Central tem feito um bom trabalho, com as expectativas apontando para a meta. Olhando para o ajuste do ano que vem, tem essa confiança institucional.

Quais os riscos da variante Delta de coronavírus para a economia?

Vemos com menos preocupação a disseminação da variante Delta. Os números estão subindo, mas com a percepção de que a vacinação seguirá em bom ritmo e de que dificilmente veremos casos graves. O risco tende a ser menor. Assim como a segunda onda mostrou-se menos complicada, a economia se adaptou. Também com a variante Delta pode ir neste sentido. Não só a economia está mais adaptada como a população está mais vacinada.

Como o banco vê o câmbio?

A percepção é de que estruturalmente tem espaço para apreciação do real, com o dólar abaixo de R$ 5,00, mas é sempre passível de volatilidade. Com o juro subindo, acaba sendo um elemento importante para essa valorização. Mas importante do que a perspectiva de alta de juros é o juro que será mesmo entregue, que tem mais impacto na dinâmica do câmbio. A alta de juros e os fundamentos, com commodities se valorizando, propiciam cenário de apreciação cambial. Prevemos R$ 4,75 para o câmbio no final deste ano e R$ 4,5 ao término de 2022.

Como avalia os riscos fiscais atuais?

A percepção geral era a de que o Orçamento do ano que vem tinha uma folga grande. Só que com a inflação para cima, esse espaço tem diminuído. Importante é entender a dinâmica institucional. É importante que o debate sobre o cumprimento do teto de gastos seja levado muito a sério. Há um desafio estrutural de décadas pela frente de ajuste fiscal. O fato é que a dívida é muito alta. O governo precisa descobrir como pagá-la. Esse será um tema importante no ano que vem, com a eleição.

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