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Dinâmica própria

A situação da economia é sabidamente complicada e o "ciclo político", como diz o pessoal do mercado quando se refere ao ambiente que predomina nas proximidades de eleições gerais, está em plena vigência. Trata-se de uma combinação potencialmente explosiva, capaz de estimular o governo a adiar ajustes inevitáveis e também a produção de críticas extremadas, antecipadoras do fim do mundo.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2014 | 02h03

Sugere o bom senso, portanto, que, em momentos como esses o melhor a fazer é descontar dos fluxos de diagnósticos para o futuro as possíveis exacerbações do presente. Agindo assim, mesmo sem discordar das direções para as quais apontam os problemas, pode-se evitar o embarque nas canoas furadas dos corretivos radicais - bons para animar palanques, mas talvez desnecessários e, enfim, inexequíveis na prática.

O desenho de um cenário de fim do mundo é coerente com a ideia de que 2015 será um ano para ser esquecido, tal o amargor dos ajustes que teriam de ser feitos para recolocar a economia o mais cedo possível numa rota de crescimento aceitável. Só que não é esse, necessariamente, o caminho que será percorrido pela economia, ainda que um candidato de oposição barre o projeto de reeleição da governante do turno.

Não é preciso recuar muito no tempo para sustentar essa perspectiva mais comedida. Há pouco mais de dez anos, na passagem de Fernando Henrique para Lula, o fim do mundo também deu as caras, com o agravante de uma fuga de capitais, que desencadeou uma crise cambial hoje inexistente. Refletido em indicadores macroeconômicos, havia tudo o que há hoje, inclusive o ciclo político, em níveis mais deteriorados.

Esses indicadores, desconectados do mundo externo e dos progressos institucionais alcançados em oito anos de FHC, formavam o retrato perfeito para diagnósticos do fim do mundo: inflação anual de 12,5%, desemprego perto de 15%, crescimento inferior a 2%, dólar na fronteira de R$ 4 e juros básicos de 25% ao ano, sem falar no rombo externo que exigiu negociar mais um acordo condicionado com o FMI.

Sim, sim, bem certo que 2015 não é 2003, mas não deixa de haver uma ironia na constatação de que o fim do mundo de uma década atrás foi superado, de acordo com expoentes do fim do mundo de hoje, com mais do mesmo do governo anterior. Além de não promover ajustes ou reformas de grande porte, Lula, na tecla batida por seus críticos, manteve os princípios fundamentais do modelo anterior.

São outras - e bem mais enroscadas, é verdade - as condicionantes macroeconômicas atuais, a começar por uma situação internacional mais para adversa do que para favorável. Ainda assim, é o caso de acreditar um pouco mais na dinâmica própria da economia. Imagine-se algo hoje plausível, por exemplo, uma taxa de câmbio estabilizada por um tempo nos R$ 2,20 em que está parecendo querer se acomodar?

De um lado da moeda, cresceriam, provavelmente, as dificuldades no setor externo, mas o déficit em transações correntes se manteria no ponto em que chegou, um pouco acima de 3,5% do PIB, na média dos emergentes. Do outro lado, os alívios seriam maiores. Mesmo que os impactos positivos nos preços dos produtos comerciáveis (que competem com importações) não venham a ser tão diretos e tão rápidos, difícil imaginar que a inflação não observasse alguma descompressão.

Se é preciso esperar pelos efeitos do câmbio nos índices de preços, eles já se fazem sentir nas contas da Petrobrás. No caso da gasolina, a defasagem entre os valores pagos na importação e os cobrados na venda ao mercado interno já caiu de 12%, em janeiro, para 8%, em abril. Quanto ao diesel, a diferença recuou de 14%, no início do ano, para 4%, agora.

Não está nada bom, mas dá para ver que, entre outros aspectos nos quais a dinâmica própria da economia costuma fazer uma parte dos ajustes, os aumentos de preços heroicos previstos pelos analistas do fim do mundo não são uma fatalidade.

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