Banco Solidário de Gostoso/Reprodução
O gostoso, nota criada na cidade de São Miguel de Gotoso (RN), é um dos tesouros cobiçados pelos colecionadores de moedas. Banco Solidário de Gostoso/Reprodução

Dinheiro comunitário também entra na mira dos colecionadores de moedas

Moedas próprias utilizadas por pequenas comunidades, que seguem padrões de iconografia e segurança próprios, além de terem o mesmo valor do real, chamam a atenção dos numismáticos

Eduardo Rodrigues e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 09h00

BRASÍLIA - O lançamento da nova nota de R$ 200 aumenta a quantidade objetos monetários colecionáveis do Brasil, um dos países que mais mudanças nas moedas usadas nos últimos dois séculos. Mas não são apenas as cédulas oficiais emitidas pelo governo que fazem sucesso entre os colecionadores. Recentemente, o chamado dinheiro comunitário passou a ganhar espaço na numismática.

Como mostrou o Estadão no mês passado, os 115 bancos sociais que existem no Brasil tiveram atuação importante durante a pandemia de covid-19, atendendo a população mais pobre em comunidades espalhadas por 90 municípios em 22 Estados. Essas instituições funcionam como ongs, criadas por lideranças da comunidade para dar crédito aos pequenos empreendedores locais por meio de moedas próprias que recirculam apenas dentro dessas comunidades.

“As notas sociais se agregam ao Real em diversas cidades brasileiras, como principal instrumento da economia solidária, por meio de um banco criado e gerido pela própria comunidade, com o objetivo de promover o crescimento socioeconômico sustentável daquele local”, diz o servidor público aposentado e membro da Associação Filatélica e Numismática de Brasília (AFNB), Paulo Amauri de Oliveira Mello.

Ele explica que as cédulas de maracanãs, capivaris, gostosos, cocais, orquídeas, tupis, veredas – que têm valor de face equivalente ao Real – também seguem padrões de iconografia, segurança e contam com a logomarca da Rede Nacional de Bancos Comunitários, liderada pelo Banco Palmas de Fortaleza (CE).  

“Essas notas possuem uma bagagem numismática muito boa e original, além de ter um valor comercial, para coleção, bem acessível. São fatores que têm despertado o interesse de muitos colecionadores por todo Brasil”, acrescenta Mello.

O colecionador lembra que o material numismático brasileiro é um dos mais diversificados do mundo, com oito padrões monetários já extintos e o Real em vigência, além de séries de moedas específicas como os Dobrões, em ouro, e os Patacões, em prata.

“Desde os 14 anos venho colecionando e estudando as cédulas e moedas brasileiras. Convivi, como muitos de nós, com o dinheiro oficial brasileiro desde o Cruzeiro de 1942. Foram sete moedas diferentes, mais o Real. E olha que tivemos que rebolar para entender as cédulas com carimbo, sem carimbo, com legenda alterada, com legenda própria, com valor que tinha que ser convertido por um índice econômico e com cédula cujo valor não valia nada. Sobrevivemos!”. 

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Nota de R$ 200 está longe de ser a cédula mais valiosa do mercado

Moeda em homenagem à coroação de D. Pedro I, cuja estampa ele não gostou, foi vendida, em 2014, por US$ 500 mil nos EUA; para especialista, é a tiragem pequena que define o valor de uma moeda ou cédula

Eduardo Rodrigues e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 09h00

BRASÍLIA - Apesar da nova cédula de R$ 200 ter o maior valor nominal da família do real, a nota que deve ser lançada oficialmente hoje pelo Banco Central está longe de ser o dinheiro brasileiro mais valioso do mercado. Colecionadores e investidores negociam cédulas e moedas brasileiras por valores que chegam à casa das centenas de milhares de dólares.

A ciência que estuda os objetos de valor monetário - como moedas, cédulas e medalhas – é chamada numismática, acolhendo também colecionadores amadores e profissionais dispostos a investirem valores altos em leilões de moedas raras. O diretor social e de divulgação da Sociedade Numismática Brasileira (SNB), Bruno Pellizzari, explica que existe um mercado consolidado que se assemelha muito ao de obras de arte.  

De acordo com ele, a peça brasileira mais cara da história foi vendida em um leilão nos Estados Unidos em 2014 por US$ 500 mil. É uma moeda de 6.400 réis feita para a coroação de Dom Pedro I. Foram cunhadas apenas 64 peças, porque o imperador não gostou da estampa. Dezesseis dessas moedas são conhecidas hoje, a grande maioria em museus. No Museu de Valores do Banco Central, em Brasília, estão duas delas.

Mas não basta ser antiga para que uma moeda ou cédula conquiste uma alta cotação nesse mercado. “O principal critério de valor é a tiragem. Se a peça teve uma tiragem baixa, o valor tende a ser maior. O estado de conservação também pesa muito.  Além disso, como acontece com qualquer ativo, o interesse do mercado valoriza a peça”, explica Pellizzari.

Ele cita o exemplo da coleção de moedas de R$ 1 lançadas pelo BC na primeira metade da última década com estampas que remetem aos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Além do interesse do público comum nessas moedas, houve também uma demanda de colecionadores internacionais trazida pelo evento.

“A tiragem de cada uma das 16 moedas esportivas lançadas entre 2014 e 2016 chegou a 20 milhões, mas a moeda ‘Entrega da Bandeira Olímpica’ teve apenas 2 milhões de peças lançadas em 2012, que alcançaram um valor bem maior”, compara. “Moedas e cédulas que escapam do controle de qualidade da Casa da Moeda e chegam ao mercado com alguns erros de impressão também são colecionáveis”, acrescenta.

Escassas

Desde a criação do real, em 1994, a moeda com menor tiragem foi cunhada em 1998, também de R$ 1 e com a estampa em homenagem aos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. “Foram feitas apenas 600 mil peças. Podemos dizer que nenhuma moeda do real é rara, mas há sim há escassas como essa. O preço varia muito, de R$ 150 até cerca de R$ 500 por uma moeda ‘flor de cunho’, ou seja, perfeita e brilhante”, completa o especialista.  

O Banco Central já explicou que a tiragem da nova nota de R$ 200 dependerá da demanda da população por meio circulante. O primeiro lançamento de um novo valor de cédula de real desde 2002 movimentou o circuito dos colecionadores, mas o mercado de dinheiro em papel não é tão vasto quanto o de dinheiro em metal.

“O mercado de cédulas tem muitos empecilhos, como as dificuldades para a conservação. Uma cédula ‘flor de estampa’, perfeita, sem marca, sem dobra, precisa ser muito bem acondicionada, senão pode amarelar ou amassar. E com isso, a perda de valor é muito grande. Mesmo assim, temos casos específicos de cédulas antigas que alcançam o preço de dezenas de milhares de reais”, completa Pellizzari.  

Made in China

Ele lembra que o Brasil é um dos países que mais emitiu diferentes moedas desde a época de colônia portuguesa. Todas as mudanças de regime monetário do País colocam o Brasil em destaque no mercado internacional, mas também tornam a numismática brasileira um alvo para a pirataria.

“Hoje é muito comum encontrar na internet peças feitas na China como réplicas de moedas brasileiras antigas que não têm valor histórico ou de coleção. Isso é diferente das falsificações de época, que também não o tem valor de uma peça autêntica, mas são interessantes porque contam uma história de como as pessoas tentavam enganar os governos em outros tempos”, explica.  

Por isso, a recomendação da SNB é para que as pessoas que tenham moedas antigas guardadas procurem especialistas que saibam avaliar o valor atual e possam comprovar a originalidade das peças. “Existem catálogos especializados e livros sobre moedas brasileiras e internacionais. O mais seguro para o colecionador amador é procurar lojas especializadas que estão espalhadas em todo o Brasil. Além disso, a SNB promove eventos, palestras e artigos para estimular a pesquisa do tema no País”, conclui Pellizzari.

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