Dinheiro do BNDES para a indústria cai 20%

Os empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) à indústria de transformação, um dos principais termômetros dos investimentos no setor, tiveram redução de 20% este ano até agosto, em relação ao ano passado. Desse cálculo foram excluídos os recursos destinados a equipamentos de transportes, que têm como principal fonte demandadora a Embraer. O peso da indústria aeronáutica é tão grande que, incluída na conta a rubrica "outros equipamentos de transporte", torna positivo o resultado, com um aumento de 22% dos desembolsos do banco para a indústria. O que em princípio pode parecer uma indicação de recuo das apostas do empresariado, na opinião do diretor de Indústria, Comércio e Serviços do BNDES, Wallim Vasconcellos, é apenas uma espécie de alternância de ciclos da indústria. "Os números não mostram interrupção de investimentos. A indústria tem ciclos bem definidos e o ano passado foi marcado por muitos investimentos. Se levarmos em consideração a quantidade de projetos em consulta no banco, veremos que a indústria já decidiu investir, não está com medo da conjuntura." Até agosto, os desembolsos totais do banco para a indústria somaram R$ 10,22 bilhões, cerca de R$ 1,8 bilhão acima do período no ano anterior. Apenas a rubrica de equipamentos de transportes abocanhou R$ 5,185 bilhões dos desembolsos este ano, 155% acima de 2001. Os demais ramos industriais ficaram com os desembolsos restantes de R$ 5,035 bilhões de janeiro a agosto deste ano. Houve queda, comparada a 2001, nos valores para alimentos e bebidas (21%), celulose e papel (25%), veículo automotivo (27%) e outros segmentos (32%). "Em contrapartida, as consultas do setor de celulose e papel em análise no banco no período cresceram 291% em relação ao ano passado e, por esse parâmetro, podemos deduzir também que o setor automotivo vai crescer muito no ano que vem", diz Vasconcellos. Na avaliação da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), porém, o empresariado ficou mesmo mais receoso. "Temos pesquisa mostrando que realmente os empresários da indústria de transformação tomaram posição cautelosa, revisaram para baixo planos de investimentos e deram meia trava em projetos", afirma a diretora do Departamento de Economia e Pesquisa da Fiesp, Clarice Messer, citando que a pressão de custos tem sido grande e gera redução de margens para as indústrias. Encomendas - Para reduzir esse efeito, a lista de medidas adotadas tem incluído justamente a redução de investimentos e até a substituição de investimento por capital de giro. Como o crédito diminuiu, os recursos passaram a ser deslocados para o giro da operação, explica a economista. O cenário se completa com encomendas postergadas pelo atacado junto às fábricas nos últimos meses e, com isso, um nível de produção em curso apenas para se atender o necessário. Há também estoques acumulados em vários setores, e não apenas no de automóveis. A constatação é de que a esperada retomada da atividade não ocorreu. "O ano para a indústria já acabou", chega a dizer Clarice. A economista argumenta que eventuais mudanças nas taxas de juros terão efeito somente para a produção no ano que vem e avalia que o tempo de reação a medidas num quadro eleitoral, "que é naturalmente de incertezas e vai até novembro", não deixa muito tempo para se fazer um "ano maravilhoso".

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