Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Dinheiro do FGTS na Caixa não deve ampliar linhas de crédito, dizem analistas

Operação, que ainda depende do aval do Conselho Curador do FGTS e do posicionamento do TCU, vai evitar que o banco de fomento precise de um socorro do governo em 2018

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2018 | 19h28

A injeção de R$ 15 bilhões na Caixa Econômica Federal por meio de uma operação com o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) traz um alívio em termos de capital para o banco, mas não deve ser um impulso para a oferta de crédito, acreditam analistas do mercado. A medida, assinada pelo presidente Michel Temer e publicada nesta sexta-feira, 5, no Diário Oficial da União (DOU), permitirá que a instituição cumpra as exigências regulatórias em torno de Basileia III sem passar apertos.

A operação, que ainda depende do aval do Conselho Curador do FGTS e do posicionamento do Tribunal de Contas da União (TCU), vai evitar que a Caixa precise de um socorro do governo em 2018. Na prática, atualmente, o banco público não está desenquadrado. No entanto, a implementação das regras de Basileia III, que endurecem neste ano, consomem recursos, exigindo do banco mais capital.

O índice que se refere ao capital principal da Caixa, ou seja, próprio dos acionistas, estava em 8,97% no término do primeiro semestre. Pelas novas regras de Basileia, o mínimo terá de ser de 7,0% a 9,5% em 2019.

++ Socorro à Caixa com recursos do FGTS deve sair semana que vem, diz ministro

Na visão da analista de bancos públicos da agência de classificação de risco Fitch Ratings no Brasil, Esin Celasun, os R$ 15 bilhões são positivos em termos de capital regulatório. "Os R$ 15 bilhões não são muito relevantes em relação à carteira de crédito do banco, de cerca de R$ 600 bilhões, mas apoia o crescimento porque vai permitir que banco aumente seu funding e repasse como crédito", explica ela, em entrevista ao Estadão/Broadcast.                                   

Exatamente pela pouca relevância ante a carteira total do banco, analistas do mercado não esperam que a operação junto ao FGTS seja suficiente em termos de estratégia de concessão de crédito, principalmente do lado da habitação, que responde por cerca de 70% deste setor. "Os R$ 15 bilhões devem funcionar mais como um tapa buraco. Não resolvem o problema. A Caixa terá de reduzir a sua carteira de crédito de pessoa jurídica para voltar a crescer com mais vigor no crédito imobiliário", avalia um analista, na condição de anonimato.

++Governo quer mudar 'regra de ouro' para evitar crime de responsabilidade

Neste contexto, contribui, conforme o responsável por instituições financeiras da Fitch no Brasil, Cláudio Galina, o fato de a demanda por crédito no Brasil não estar tão forte. "Os bancos públicos não estão com tanto apetite de crédito como estavam no passado", avalia ele, em entrevista ao Estadão/Broadcast, lembrando que o cenário eleitoral também traz uma dinâmica diferente para o ano de 2018.

Galina destaca ainda que o principal desafio do banco é obter recursos para continuar aumentando sua carteira de crédito e tocando programas como o Minha Casa, Minha Vida após 2018. O próprio presidente da Caixa Econômica Federal, Gilberto Occhi, tem dito que o problema do banco não é capital, mas recursos suficientes para seguir tocando as políticas do governo.

Além dos R$ 15 bilhões, o analista da Fitch lembra que a Caixa tem outras medidas que devem ser usadas para endereçar melhor a questão do capital e de sua carteira de crédito. Neste momento, o banco busca sócios para seu balcão de seguros, o que deve render uma injeção de recursos adicional na instituição, fora o esforço que fez para redução de despesas com um plano de demissão voluntária (PDV).

Outra medida que deve dar um fôlego extra para a Caixa é a retenção de recursos. Depois de um ano com lucro recorde, o banco deve reter mais resultado, como já fez nos últimos anos. Para 2017, segundo fonte ouvida pelo Estadão/Broadcast, a Caixa espera pagar no máxima 25% do seu lucro líquido ajustado, como já fez no ano anterior. O porcentual é menor que os cerca de 50% registrados em 2015, que também estiveram abaixo do patamar de 100% que vigorou entre os anos de 2011 e 2014.

A divulgação será feita, contudo, depois de uma sequência de atrasos nos balanços. Com isso, os números do terceiro e quarto trimestre de 2017 - e os dados anuais - devem ser publicados em conjunto nos próximos meses. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.