Dinheiro não é garantia de boas políticas

Pessoas responsáveis, que querem para seus filhos e netos um país melhor do que este, sabem que seu objetivo ficará tanto mais distante quanto menos conseguirmos, desde já, melhorar substancialmente a qualidade do ensino. A boa formação escolar significa jovens mais preparados para o mercado de trabalho e mais aptos para bem desempenhar as funções cada vez mais complexas que vão surgindo e para elevar a produtividade do País.

JORGE J. OKUBARO, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2014 | 02h04

O avanço da produtividade tornou-se uma das preocupações centrais de dirigentes empresariais empenhados em criar as condições para o Brasil superar seus obstáculos e reconquistar o espaço que vem perdendo na economia mundial. Para a indústria nacional, que perde para os estrangeiros fatias até do mercado doméstico, essa questão se tornou vital. Por isso, o Mapa Estratégico da Indústria 2013-2022 que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) vem discutindo com os principais candidatos à Presidência da República tem como um de seus itens justamente a educação voltada para o mundo do trabalho.

"Os trabalhadores deverão estar muito mais bem preparados para lidar com as novas tecnologias de produção e de organização da produção que determinam a competitividade das empresas e a prosperidade das nações, condicionando a eficiência com que se produz, a capacidade criativa das pessoas e a agregação de valor aos produtos e serviços", diz o documento.

Tem sido lembrado com frequência que, na década de 1980, a produtividade de brasileiros e coreanos era bastante semelhante. Hoje, a dos coreanos corresponde a três vezes a dos brasileiros. As consequências são notáveis. Os ganhos de produtividade asseguraram amplos mercados para os produtos coreanos. O que produziu essa diferença foi o sistema educacional.

Muitos brasileiros preocupados com o futuro do País, por isso, talvez tenham se sentido reconfortados com a decisão do Congresso, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, de destinar para a educação o equivalente a 10% de tudo o que o País produz, pois ela parece assegurar os recursos indispensáveis para a melhorar o ensino. Será, no entanto, que essa melhora depende só de mais recursos (a decisão, além de aumentar a fatia que o poder público deverá destinar obrigatoriamente para a educação, garante que, ao longo do tempo, o valor cresça na mesma proporção que a economia)? Especialistas em educação sabem que o aumento do gasto médio por aluno não melhora o aprendizado.

Mesmo que a melhora do sistema educacional dependesse de mais dinheiro, o aumento das aplicações de recursos públicos em educação não precisaria, necessariamente, decorrer da reserva obrigatória de uma fatia expressiva da receita dos governos para isso, como impõe a nova legislação. A correta aplicação de recursos em educação deve depender, isso sim, da responsabilidade e da clarividência dos governantes, não de imposição legal. Essa imposição, ademais, reduz, até de maneira drástica, a capacidade do governo de aplicar em outras áreas carentes do setor público, e pode resultar em desperdícios.

Há, ainda, uma mudança no padrão demográfico em diversas regiões que, num futuro não muito distante, deixará claro que a necessidade não será de mais escolas, que exigem vultosos investimentos, mas do aprimoramento da qualidade do ensino. São as regiões em que a população de crianças e jovens passará a declinar. Mesmo sem aumento real das aplicações, o gasto médio por aluno nessas regiões tenderá a crescer. Mas, qualquer que seja o padrão demográfico de cada região, todas necessitarão da melhora do ensino. Mas a facilidade ou a abundância de dinheiro asseguradas pela vinculação tendem a tornar os governantes mais acomodados e menos dispostos a fazer as mudanças necessárias.

Elas são, mesmo, necessárias. A escolaridade média do brasileiro melhorou nos últimos anos. As estatísticas indicam que 85% dos brasileiros com idade de 15 a 17 anos estão matriculados, mostrou a revista Conjuntura Econômica, editada pela Fundação Getúlio Vargas. Mas só metade deles cursa o período escolar corresponde à sua idade. A outra está atrasada. E, para utilizar as novas tecnologias que vão se disseminando pelo sistema produtivo, é necessário, no mínimo, ter concluído o ensino médio.

Entre as recomendações para que, a partir de mudanças no sistema educacional, o Brasil passe a trilhar de maneira segura o que chama de "rota para a produtividade", a CNI inclui a necessidade de aprimoramento das escolas, para que elas apresentem resultados melhores. Políticas convencionais não bastam. Decerto a educação básica precisa ser de qualidade, mas é preciso adaptar os currículos às novas necessidades do mercado de trabalho. "Os currículos devem incorporar atividades e conteúdos que capacitem crianças e jovens a participar ativamente do mundo e do mercado de trabalho que os aguarda", diz o Mapa. As atividades escolares devem ir muito além do acesso à internet, dos jogos e de outros recursos eletrônicos. "Elas deverão privilegiar o desenvolvimento cognitivo e o desenvolvimento de capacidades para encontrar soluções de problemas complexos."

Também será necessário atrair mais jovens para os cursos de formação profissional. O governo federal vem fazendo sua parte por meio do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e ao Emprego (Pronatec), mas com resultados ainda não compatíveis com o montante de recursos mobilizados (a primeira etapa do programa teve investimentos de R$ 14 bilhões). Permanece o desafio de assegurar que os formados por esses programas consigam aplicar no mundo real, no mercado de trabalho, aquilo que aprenderam. Ou seja, é preciso assegurar que o ensino oferecido acompanhe as tendências do mundo produtivo. Não é um desafio simples de ser vencido.

É claro que a educação, por si só, não garante a inserção no mercado de trabalho ou uma remuneração melhor, mas sem a boa preparação dos jovens a produtividade do Brasil continuará patinando.

* Jornalista, é autor de 'O Súdito (Banzai, Massateru!)', Ed. Terceiro Nome

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.