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Dinheiro não é tudo

Sentir-se livre de responsabilidade e para buscar os próprios interesses é o que nos traz felicidade, e esta é a marca dos aposentados com maior grau de bem-estar

Fábio Gallo*, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2021 | 04h00

Quando se observam as pesquisas que tratam da relação entre idade e nível de bem-estar das pessoas, encontra-se que os indivíduos mais jovens e os mais velhos dizem-se com maiores graus de bem-estar, comparados aos adultos de meia-idade. Como esperado, os mais jovens têm maiores expectativas para o futuro, que vai declinando conforme ficam mais velhos. Algo natural.

As pessoas que se declaram com o menor nível de bem-estar são aquelas entre 40 e 49 anos. Dentre outros fatores, pode-se entender que essa faixa está na fase de ainda brigar pelos seus objetivos, mas vendo o tempo passar sem isso ainda ter acontecido. Por outro lado, aqueles com mais de 60 anos, a despeito do menor nível de expectativa em relação ao futuro, apresentam o maior nível de bem-estar declarado.

Isso não tem nada a ver com riqueza. Não há relação direta entre riqueza e felicidade. As pessoas aposentadas que se dizem com maior nível de bem-estar são as que vivem como haviam planejado viver. Os aposentados que vivem melhor se planejaram para isso, e principalmente conseguiram realizar o planejado para chegar nesse novo momento de suas vidas. Há quem gaste mais tempo planejando uma viagem que a aposentadoria.

A crise trazida pela covid desencadeou sérias dificuldades econômicas para todos, mas trouxe alguns novos aprendizados. No lado positivo, passamos a dar mais valor à vida e começamos a nos preocupar com certas coisas antes menos importantes. Por exemplo, os jovens passaram a ter maior cuidado com o planejamento financeiro para a aposentadoria. Mostram-se mais preocupados em manter um padrão de vida razoável, ter dinheiro para os cuidados com a saúde e não esgotar suas economias.

Dentre as consequências trazidas pela pandemia, as pessoas pensam em se aposentar mais tarde. Algo muito interessante é que os aposentados estão reconhecendo a importância dos aspectos não financeiros da aposentadoria. As pessoas passaram a procurar orientação não apenas sobre como gastar seu dinheiro na aposentadoria, mas como gastar seu tempo. Como não têm preocupação em perder o emprego e mais segurança em como pagar as contas durante a pandemia, muitos aposentados puderam se concentrar nos aspectos qualitativos de sua aposentadoria.

Dentre as lições que podemos tirar desse ambiente, algumas são objetivas, como o reconhecimento de que dinheiro não é tudo, a preocupação com a saúde ganha prioridade, as relações familiares são essenciais, o controle de gastos e de investimentos deve ser firme, mas o mais importante é encontrar o seu propósito de vida enquanto aposentado. Justamente por isso, planejar como quer estar quando aposentado é tão importante. Sentir-se livre de responsabilidade e para buscar os próprios interesses é o que nos traz felicidade, e esta é a marca dos aposentados com maior grau de bem-estar.

*PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP

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