Gabriela Biló/Estadão
Bolsonaro deveria trabalhar para estreitar ainda mais os laços com a China de Xi Jinping. Gabriela Biló/Estadão

Diplomacia amadora amplia dependência brasileira do mercado chinês; leia análise

Bolsonaro deve começar a sentir o peso de tamanha inconsequência à medida que nos aproximarmos das eleições

Vinícius Rodrigues Vieira*, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 05h00

A atual conjuntura indica que a dependência do Brasil em relação à China só é superável a longo prazo. Isso porque, além de Pequim responder por pouco mais de um terço de nossas exportações, o mundo pós-pandemia deve ser caracterizado pela bipolaridade entre o gigante asiático e os EUA.

Assim, qualquer potencial inquilino futuro do Palácio do Planalto terá de fazer aquilo que o presidente Jair Bolsonaro tem se recusado a fazer de modo sistemático e um tanto quanto infantil: manter boas relações bilaterais com nosso principal cliente no comércio internacional enquanto busca alternativas para reduzir tal dependência.

Essa busca deve ser feita o quanto antes. Muito embora o governo e parte do agronegócio pensem que a China tem alternativas limitadas para comprar soja, o país se movimenta para fomentar a produção em regiões da África.

Bolsonaro deve começar a sentir o peso de tamanha inconsequência à medida que nos aproximarmos das eleições. Não se deve descartar o apoio de produtores rurais a um nome de centro-direita na tentativa de restaurar os laços com a China depois de 2022.

A literal salvação da lavoura – e, portanto, do País – consiste em diversificar os mercados e a pauta de exportação, algo que exigirá um trabalho de anos e anos. Um começo consiste em fazer de tudo para efetivar o acordo Mercosul-União Europeia, paralisado devido à inépcia diplomática do bolsonarismo. 

O Brasil tem peso geopolítico suficiente para extrair o máximo da bipolaridade que se avizinha. Falta competência – não apenas na Praça dos Três Poderes, mas também no Itamaraty e no Ministério da Economia. O jogo global para o qual caminhamos é complexo demais para nos darmos ao luxo de manter o destino nas mãos de amadores.

*PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA FAAP E DA FGV

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Puxadas pelo minério de ferro, exportações para a China crescem 36% até abril

Nos primeiros quatro meses do ano, vendas para os chineses atingiram o valor recorde de US$ 27,63 bi; números mostram um aumento da dependência brasileira do país asiático, e novas críticas do governo ao parceiro comercial preocupam

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 05h00

O aumento dos preços internacionais da soja e, principalmente, do minério de ferro, combinado com uma retomada da economia mundial, fez as exportações brasileiras para a China dispararem ainda mais e atingirem o maior nível da história para os meses de janeiro a abril. Nos primeiros quatro meses do ano, o País já exportou o equivalente a US$ 27,63 bilhões para os chineses, o maior valor na série histórica para o mesmo período. O número representa um aumento de 36% em relação ao mesmo período do ano passado. 

Com o crescimento, o Brasil aprofunda mais sua dependência do mercado chinês. O país asiático é hoje o destino de 34% dos produtos brasileiros, nível mais alto da história e mais que o triplo das vendas para os EUA (10%), o segundo maior importador. No ano de 2001, que marcou a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, 24% das exportações brasileiras tinham como destino os EUA e apenas 2%, a China. 

Ao mesmo tempo, o governo Jair Bolsonaro continua a criticar os chineses, o que traz preocupações ao mercado. No episódio mais recente, no início deste mês, o presidente insinuou que o país asiático poderia ter criado o coronavírus propositalmente, como parte de uma “guerra química”. “As críticas do presidente só não prejudicam mais o comércio porque a China não tem um fornecedor alternativo ao Brasil”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB)

Alta de preços

O crescimento do primeiro quadrimestre foi puxado principalmente pelas exportações de minério de ferro, cujo preço da tonelada nos mercados internacionais passou de US$ 80 para mais de US$ 200 em um ano. Com isso, as vendas do produto para a China tiveram uma alta de 96%, somando mais de US$ 7,6 bilhões de janeiro a abril.

As exportações de soja e petróleo para a China também subiram, mas em um nível menor (22% e 27%). Juntos, os três produtos correspondem a 81% de tudo que o País exporta para a China. “O Brasil tem produtos competitivos e uma taxa de câmbio favorável. Os exportadores ganham mercado onde é possível. Assim, a China vai continuar sendo o principal destino”, diz Mário Cordeiro, economista-chefe da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

A maior demanda por commodities com preços elevados já faz especialistas preverem um ano excepcional para o setor externo. Em relatório obtido pelo Estadão, a AEB estima um superávit comercial recorde de US$ 79,8 bilhões de dólares para 2021, superando o nível em 2017 (US$ 67 bilhões). “Temos uma situação favorável. Tudo vai crescer em relação ao ano passado, que foi mais fraco”, diz Castro. “O problema é que temos de rezar todo dia para que a demanda na China continue bem.” 

O crescimento da China como compradora de produtos brasileiros também tem elevado a participação das commodities nas exportações brasileiras, e a uma redução dos produtos manufaturados.

De acordo a AEB, todos os dez principais produtos exportados pelo Brasil são commodities agrícolas e minerais, e a China é a maior compradora de seis desses produtos (soja, minério de ferro, petróleo bruto, carne bovina, carne de aves e celulose). Castro lembra que 75% das exportações brasileiras são commodities, enquanto 85% das importações são de produtos da indústria de transformação.

Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior (2007-2011) e sócio-fundador da BMJ Consultores Associados, o aquecimento das exportações no Brasil tem relação com os preços em alta, e não necessariamente com um maior volume. “Havia uma demanda reprimida e a economia chinesa teve uma rápida recuperação. Além disso, problemas com a oferta do minério de ferro fizeram os preços subirem”, diz Barral.

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