Diplomata dos Estados Unidos irrita argentinos

Membros do governo Cristina Kirchner reagem a declarações de embaixador sobre estado de calote

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2014 | 02h05

O governo da presidente Cristina Kirchner reagiu de forma irritada às declarações à imprensa portenha do encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires, Kevin Sullivan. O diplomata afirmou que "é importante que a Argentina saia do estado de calote o mais rápido possível".

Sullivan referia-se ao calote parcial no qual a Argentina entrou no dia 30 de julho, pela não entrega dos US$ 535 milhões aos credores reestruturados de títulos Discount argentinos a serem pagos nos Estados Unidos.

O chefe do gabinete de ministros, Jorge Capitanich, anunciou ontem que o diplomata americano foi convocado pelo chanceler Héctor Timerman para prestar explicações.

Segundo Capitanich, as declarações "desafortunadas" e "incorretas" de Sullivan constituem uma "interferência" na soberania nacional argentina. Na reunião realizada na chancelaria em Buenos Aires, Timerman expressou seu "profundo mal-estar" pelas declarações do diplomata e ameaçou que, no caso de repetição, aplicaria "as mais severas medidas estipuladas na Convenção de Viena sobre a conduta dos representantes diplomáticos". O artigo 9 da convenção autoriza a expulsão de diplomatas.

O governo Kirchner argumenta que o país "não está em estado de calote", já que o pagamento aos credores não pode ser realizado por determinação do juiz federal de Manhattan, Thomas Griesa. O juiz indicou que, se a Argentina quiser pagar seus credores regulares, também terá que realizar o pagamento aos "holdouts", denominação dos credores que não aceitaram as reestruturações dos títulos da dívida pública argentina em 2005 e 2010 feitas pelo governo Kirchner.

Um grupo dos holdouts, o fundo hedge NML, conseguiu que o juiz Griesa determinasse à Argentina o pagamento de US$ 1,33 bilhão referentes a 100% dos títulos que possui e se encontram em estado de calote desde 2001.

Segundo o ministro da Economia, Axel Kicillof, a Argentina tem "disposição" de pagar a dívida com os credores reestruturados. No entanto, recusa-se a atender às exigências dos fundos hedge, aos quais chama de "fundos abutre".

Papa. O monsenhor Guillermo Karcher, chefe do protocolo do Vaticano, que eventualmente age como porta-voz do papa Francisco, afirmou ontem que o sumo pontífice está "preocupado com a governabilidade" na Argentina.

No sábado, a presidente Cristina se reunirá com o papa em Roma, do qual espera conseguir uma declaração de respaldo a seu governo no conflito que mantém com os "holdouts".

Na semana que vem a presidente participará da Assembleia anual da ONU, na qual realizará um discurso carregado de críticas contra os credores que não aceitaram as reestruturações da dívida pública feitas em 2005 e 2010.

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