Yuri Gripas / Reuters
Yuri Gripas / Reuters

Diplomatas americanos foram pegos de surpresa com anúncio de Trump

Desde que o presidente Jair Bolsonaro visitou Trump, em março, os times econômicos dos dois governos têm travado uma série de negociações

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 16h32

WASHINGTON - O anúncio do presidente Donald Trump de que pretende impor tarifas à importação de aço do Brasil e da Argentina pegou de surpresa não apenas integrantes do governo brasileiro, mas também parte dos diplomatas americanos que têm participado das reuniões de negociação comercial entre os dois países. A avaliação interna em Washington, até esse momento, era a de que todas as orientações dadas pela Casa Branca apontavam para a intenção de manter boas relações com o atual governo brasileiro.

Desde que o presidente Jair Bolsonaro visitou Trump, em março, os times econômicos dos dois governos têm travado uma série de negociações. Apesar da boa vontade mútua, reiterada em público e nos bastidores por americanos, o governo brasileiro já teve parte das expectativas sobre a Casa Branca de Trump frustradas. Primeiro, os americanos mostraram que o apoio à entrada do Brasil na OCDE não acontecerá imediatamente, já que os EUA não abrem mão de ditar o próprio ritmo de adesão de novos membros à organização. Depois, o governo Trump seguiu relutante na reabertura do mercado doméstico para importações de carne bovina fresca do Brasil. Em ambos os casos, os integrantes do governo Bolsonaro contornaram a decepção com a narrativa de que as medidas estão em andamento.

O anúncio a respeito das tarifas do aço, no entanto, pegou o governo brasileiro desprevenido. O tuíte de Trump foi uma surpresa para diplomatas em Brasília e nos EUA. Em março do ano passado, os EUA anunciaram a imposição de uma sobretarifa de 25% sobre as importações de aço e de 10% sobre as de alumínio de vários países, incluindo o Brasil - o maior exportador de aço para os EUA. A medida foi questionada inclusive pela indústria americana, que considerou que a medida poderia encarecer o preço de produtos que depender da matéria-prima brasileira, e Trump então estabeleceu para o Brasil cotas de importação sem a sobretarifa.

O Itamaraty tratava a situação do aço como uma questão superada. A avaliação dos negociadores do País era a de que “houve um entendimento” no ano passado por parte dos americanos sobre a complementaridade das duas indústrias. Além disso, como há uma cota estabelecida para a importação de aço brasileiro, o governo não via uma “inundação” do aço brasileiro no mercado americano.

Em setembro, o chanceler Ernesto Araújo esteve em Washington para reuniões com a alta cúpula do governo americano, quando esteve com Robert Lighthizer. O americano é o representante comercial dos EUA e comanda o USTR, órgão responsável pela negociação de acordos comerciais e imposição de tarifas. Lighthizer é conhecido por ter, no setor privado, advogado para a indústria local e defender medidas protecionistas por parte dos EUA. Na ocasião, a questão do aço foi tratada por Araújo e Lighthizer, mas sob a perspectiva de tornar a situação mais benéfica para o Brasil – como aumentar o acesso brasileiro ao mercado americano, e não o contrário. “Tudo isso está na mesa em um espírito construtivo. (…) Senti a excelente qualidade da relação política se traduzindo numa facilidade de trato muito grande”, disse o chanceler na ocasião. Mesmo assim, o aço esteve longe de ser o tema principal do encontro, segundo fontes presentes.

O governo brasileiro trata como um claro movimento eleitoral a medida anunciada por Trump. A menos de um ano da disputa presidencial, o americano continua a mostrar que seguirá na confrontação com outros países para proteger à indústria nacional – os trabalhadores ligados à indústria pesada americana, além dos agricultores, tiveram responsabilidade significativa pela eleição de Trump em 2016. Daqui até o ano que vem, para entregar parte de suas promessas de campanha, Trump precisa chegar a um acordo comercial ainda que incipiente com a China e conseguir que o Congresso aprove a nova versão do Nafta.

Mas a ameaça de novas tarifas para países como Brasil e Argentina também tem sido lida como uma tentativa de diminuir a influência da China na América Latina. Para a economista e colunista do Estado Monica de Bolle, a medida é uma forma de atingir os chineses. “Para quem acompanha Trump, taxação não deveria surpreender tanto. É forma de chantagear (ou negociar à la Trump) para reduzir exportações de produtos agrícolas para a China. Ou seja, é sobre a China, o que coloca Brasil e Argentina em posição extremamente delicada, escreveu a economista no Twitter.

O governo também estranhou que o anúncio da imposição das tarifas tenha sido justificado com a sugestão de que o Brasil manipula a própria moeda para obter benefícios comerciais. Não é a primeira vez que Trump usa como justificativa para imposição de tarifas a questão da desvalorização cambial. Em agosto do ano passado, o presidente dos EUA usou o twitter para anunciar que autorizou que as tarifas sobre aço e alumínio da Turquia fossem dobradas pois a moeda turca “desvalorizava rapidamente” na comparação com o dólar. O tema está sendo questionado na justiça americana.

Até agora, mesmo com percalços, o discurso público do governo brasileiro era de comemoração por uma “nova era” entre os dois países. Na semana passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, esteve novamente em Washington onde se encontrou com o Secretário de Comércio americano, Wilbur Ross. Novamente, o tom da equipe brasileira ao final das reuniões foi positivo.

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