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Diretor da Fitch diz que superávit primário é essencial

O diretor da área de risco soberano para América Latina da agência de classificação de risco Fitch Ratings, Roger Scher, disse que a manutenção de uma política econômica sólida, especialmente no tocante ao superávit primário, poderá estabilizar ou até melhorar a qualidade de crédito soberano do Brasil. "Especialmente também se melhorar a perspectiva de crescimento econômico no médio prazo", disse Scher, durante teleconferência promovida para discutir o rebaixamento, na semana passada, da nota soberana do Brasil de BB- para B+. A nota brasileira ainda foi mantida com uma perspectiva (?outlook?) negativa. Scher disse que a votação da LDO será fundamental. "Seria muito positivo se fosse aprovada uma LDO que dê continuidade ao aumento da meta de superávit primário há duas semanas, de 3,5% para 3,75% do PIB em 2002. Para nós, o superávit primário pode ser chave para uma eventual melhora da avaliação de crédito do Brasil", afirmou Scher. Segundo ele, a recente deterioração no sentimento do mercado elevou a probabilidade de um cenário mais pessimista em relação à dinâmica da dívida brasileira. No cenário pessimista, o próximo governo diminuirá a meta de superávit primário, o câmbio atinge R$ 3 por dólar, o PIB cresce apenas 2% e as taxas de juros permanecem elevadas. Neste caso, a dívida bruta geral do governo cresceria para um patamar acima de 90% do PIB no médio prazo. "Por enquanto, mantemos o nosso cenário base de que a relação dívida bruta geral do governo ficará em 74% do PIB nos próximos anos", afirmou Scher. O cenário base ao qual Scher se referiu considera a manutenção do superávit primário de 3,5% do PIB nos próximos anos, um crescimento do PIB de 3% ao ano, um câmbio estabilizado por volta de R$ 2,5 por dólar e uma queda na taxa de juros. "Não acreditamos que o sentimento do mercado deverá melhorar nos próximos meses, até as eleições", disse Scher. Ele elogiou a equipe econômica atual do Brasil, que tem adotado as políticas corretas. "Contudo, as condições de mercado podem se provar extremamente difíceis de serem controladas, especialmente num ano eleitoral", disse. LRoger Scher disse que a atual turbulência no mercado brasileiro ressaltou o aumento na vulnerabilidade do balanço de pagamentos do Brasil. "A capacidade do País de levantar recursos no mercado de capitais internacional foi severamente reduzida, dado o forte aumento nos spreads de risco da dívida brasileira", observou o analista. "O setor privado tem pesada necessidade de financiamento externo", acrescentou. Scher estima que a necessidade de financiamento externo no segundo semestre deste ano é de US$ 55 bilhões, dos quais apenas US$ 9,6 bilhões são dívidas do setor público. "Então, o governo tem recursos suficientes para cobrir suas necessidades para o segundo semestre deste ano", disse o analista da Fitch Ratings. Em 2003, segundo Scher, haverá uma necessidade de financiamento externo de mais US$ 50 bilhões, dos quais apenas US$ 12,8 bilhões em dívida do setor público. O volume das necessidades de financiamento externo do Brasil compara-se com apenas US$ 43 bilhões em reservas internacionais, dos quais US$ 29,8 bilhões são classificados como reservas líquidas internacionais. Com o novo piso de reservas líquidas internacionais de US$ 15 bilhões, restam menos de US$ 15 bilhões para o BC intervir no mercado de câmbio e fazer recompra de dívida. "Numa crise prolongada, esse nível de reservas não é suficiente", afirmou. Para Scher, até o fluxo de investimentos diretos de estrangeiros (FDI, na sigla em inglês) deve ter sido afetado pela piora no sentimento do investidor em relação ao Brasil. "Nos primeiros cinco meses, o fluxo de FDI atingiu uma quantia acumulada de US$ 8,1 bilhão. No entanto, depois do resultado de US$ 1,4 bilhão de maio, a entrada de FDI nos primeiros 24 dias de junho somou apenas US$ 700 milhões", explicou. O diretor de ratings corporativos da agência de classificação de risco Fitch Ratings, Daniel Kastholm, disse que a sua preocupação imediata com as empresas brasileiras diz respeito à liquidez. "A volatilidade do mercado e a instabilidade resultaram em baixos níveis de liquidez para as empresas brasileiras", disse Kastholm. "No entanto, essa escassez de liquidez estava limitada apenas ao mercado de capitais internacional. Mas, agora, o mercado de capitais doméstico está se fechando, o que agrava muito a situação para as empresas brasileiras", disse. Ele acredita que a liquidez para o setor privado brasileiro permaneça apertada nos próximos 6 a 9 meses, enquanto durar a volatilidade do mercado financeiro brasileiro por causa das eleições presidenciais. "Isso representará um forte aumento nos riscos de refinanciamento para algumas empresas brasileiras. As companhias que tiverem elevado nível de dívida de curto prazo atrelada a taxa de juros flutuantes são as mais expostas a esse risco de refinanciamento", explicou.

Agencia Estado,

27 de junho de 2002 | 16h19

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