Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Diretor diz que BC não deve ser ‘complacente’ com alta da inflação

Análise do novo diretor de Política Econômica do Banco Central indica que ciclo de alta do juro vai continuar

Fernando Nakagawa, enviado especial à Turquia, O Estado de S. Paulo

10 Fevereiro 2015 | 20h48

ISTAMBUL - O novo diretor de política econômica do Banco Central, Luiz Awazu Pereira, fez uma análise conservadora sobre a economia brasileira na primeira entrevista após ser escolhido para o cargo. O diretor, que também acumula a cadeira de Assuntos Internacionais, acredita que a inflação elevada não é um fenômeno restrito a janeiro e os preços devem permanecer pressionados durante parte do ano. Por isso, diz que o BC deve ser “especialmente vigilante” e não pode ser “complacente”. 

Numa conversa com jornalistas para comentar os dois dias de reunião de cúpula das 20 maiores economias do mundo, o G-20, o Brasil dominou o discurso de Awazu. Antes de ser questionado sobre o tema, o diretor passou a analisar a situação macroeconômica do País. 

Para o diretor, o processo de elevação do preço do dólar e das tarifas públicas é o responsável pela maior inflação vista em janeiro no Brasil. Esse fenômeno, ressaltou, não deve ser exclusivo do primeiro mês de 2015 e “provavelmente vamos ver (alta dos índices) ao longo da primeira parte deste ano”. Sem detalhar qual a período se referia - se bimestre, trimestre ou semestre, o diretor disse que os “ajustes de preços relativos têm de ser reais e efetivos”.

Repetição. Diante da inflação que sobe e deverá continuar pressionada por algum tempo, Awazu repetiu três vezes que o BC não deve ser “complacente” e que “é fundamental que a política monetária trabalhe e mantenha-se especialmente vigilante”. Esse esforço tem como objetivo garantir que “as pressões de curto prazo não se propaguem para horizontes mais longos”. 

O discurso do diretor mexeu com o mercado e contratos mais curtos de juros futuros passaram a subir após as declarações em Istambul. O movimento indica maior aposta de que o BC pode, eventualmente, continuar por mais tempo com o processo de alta dos juros. Dessa forma, o diretor revelou tom mais “hawkish” - ala do mercado financeiro mais propensa à alta dos juros - que a expectativa de parte dos analistas de que seria “dovish” - corrente dos economistas que preferem política monetária mais relaxada - na primeira entrevista após a indicação ao novo cargo. 

Além da inflação doméstica, o discurso do novo ocupante da cadeira que era de Carlos Hamilton Araújo passa pela lembrança de que, apesar de alguns fatores externos mostrarem sinais positivos, o cenário no Brasil é desafiador e o País não pode baixar a guarda. Awazu cita como exemplo o maior crescimento dos EUA e a queda do preço do petróleo. Ambos fatores têm impacto positivo para o Brasil, “mas isso não deve nos levar a nenhuma complacência”.

O discurso mais duro e realista de Awazu acontece dois dias após o presidente do BC, Alexandre Tombini, usar a mesma viagem à Turquia para também revelar um prognóstico mais próximo ao compartilhado pelo mercado financeiro. Além de reconhecer a inflação mais alta, Tombini admitiu no domingo que o Brasil deve terminar o ano sem crescimento e o cenário só melhorará no próximo ano. 

Em ocasiões diferentes na Turquia, Tombini e Awazu disseram que a economia brasileira deverá voltar aos trilhos. No próximo ano, a economia voltará a crescer de forma “mais balanceada e sustentada” e a inflação deverá voltar ao centro da meta de 4,5% em dezembro de 2016, afirmou Awazu.

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