Diretor do BC critica prática de indexação de contratos

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Mário Mesquita, fez críticas à indexação dos contratos na economia brasileira. No Relatório Trimestral de Inflação, divulgado hoje, a autoridade monetária afirma que "um risco relevante" para a evolução dos preços "reside na atuação de mecanismos institucionais que inibem uma resposta mais intensa da inflação à maior ociosidade de recursos na economia".

ADRIANA FERNANDES E FERNANDO NAKAGAWA, Agencia Estado

26 de junho de 2009 | 14h09

Na entrevista à imprensa, Mesquita explicou que esses mecanismos são os contratos indexados reajustados conforme a inflação passada. Ele citou que isso era um "hábito" contraído na época da hiperinflação. "Isso não é obrigatório (uso de índices de preço para reajuste), mas são hábitos da época de inflação elevada. Hoje, o Brasil está cada vez mais estável, seguro", disse.

O diretor sugeriu que esses contratos deveriam ter o indicador de reajuste alterado na próxima renovação. "Na próxima renovação, o contrato pode ser escrito de outra forma. Isso não é quebra de contrato", disse. Ele, no entanto, rejeitou qualquer medida para a mudança obrigatória nesses contratos. Segundo Mesquita, se isso acontecesse, as partes encontrariam outra forma de aplicar esse mesmo reajuste. O ideal, segundo o diretor, é o BC entregar uma inflação sempre dentro da meta, o que diminui a preocupação com os preços e a necessidade de indexação de contratos.

PIB

Mário Mesquita avaliou que a resistência do setor de serviços à crise sustentou a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,8% em 2009. A nova projeção foi divulgada hoje no Relatório Trimestral de Inflação. No relatório anterior, o BC previa expansão de 1,2%. Segundo Mesquita, o setor de serviços e comércio tem mostrado maior resistência diante do cenário econômico adverso. Já para a indústria agropecuária, o BC reviu para baixo o crescimento este ano. Segundo Mesquita, já se observa na economia brasileira recuperação da produção industrial em ritmo gradual, com expansão das vendas de vários itens, especialmente automóveis, cuja a cadeia produtiva é muito importante para a economia.

O mercado de trabalho, segundo ele, também tem se comportado com bastante resistência até o momento. "Há vários indicadores que sugerem que a economia brasileira de fato teria atingido o piso da atividade econômica na virada do ano, tendo entrado depois numa trajetória gradual de recuperação", afirmou. Segundo ele, o cenário externo está melhor agora do que na divulgação do último relatório, em março, com distensão das condições financeiras e recuperação do apetite ao risco. Questionado se a projeção do BC para o PIB este ano é otimista, o diretor respondeu: "a nossa projeção é o melhor número que os nossos técnicos chegaram em função dos dados existentes".

Sobre o mercado de trabalho, Mesquita disse que tem se mostrado um fator de resistência à crise, que sustenta o consumo e a atividade econômica. O diretor previu uma taxa de desemprego ao final de 2009 de 7,6%. Até maio a taxa está em 8,8%.

Defasagem

O Relatório Trimestral de Inflação trouxe um estudo da área técnica do Banco Central que mostra que houve ampliação da defasagem da transmissão da política monetária sobre os preços e a atividade econômica. Segundo o estudo, o efeito máximo do processo de desaperto monetário iniciado em janeiro de 2009 será observado na atividade apenas no segundo semestre deste ano, seis meses depois do começo dos cortes de juro.

Nos preços, o efeito máximo será registrado no fim de 2009 e começo de 2010, 12 meses após o início do desaperto monetário. Originalmente, o BC brasileiro dizia que esse efeito da política monetária tinha atraso entre três e seis meses sobre os preços e a atividade econômica.

O diretor de Política Econômica do BC, Mário Mesquita, disse que o "alongamento dos prazos médios" praticados explica o período mais amplo para que a economia sinta os efeitos da política monetária. "Isso é efeito da estabilidade econômica", disse. Com a economia estável, contratos e financiamentos, por exemplo, ficam mais longos porque diminuem os riscos externos à operação.

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