Diretor do FMI vê riscos à recuperação da economia global

Crise das dívidas soberanas e falta de reforma do sistema financeiro internacional estão entre eles

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2010 | 00h00

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, afirmou ontem, em São Paulo, que vê quatro riscos a uma recuperação consistente da economia mundial após a recessão de 2009.

O primeiro deles diz respeito à crise das dívidas soberanas (ou seja, relacionadas a governos), um problema que estourou mais fortemente na Europa neste ano. O segundo risco, de acordo com o Strauss-Kahn, está relacionado ao fluxo de capitais entre os países.

Ele chamou a atenção para a possibilidade de uma nova parada brusca desses fluxos, que poderia ocorrer em caso de agravamento da situação de alguns países, notadamente europeus.

O terceiro risco apontado pelo número 1 do FMI é a falta de reformas do sistema financeiro mundial. Para ele, o grande desafio, neste caso, é conciliar o tempo financeiro com o tempo político. "Basileia 2 (conjunto de regras estabelecido para as instituições financeiras do mundo todo, no âmbito do Banco de Compensações Internacionais, BIS) demorou 12 anos para ser implementado", disse.

Ele observou, no entanto, que hoje não há condições políticas para que se leve tanto tempo para reformar o sistema, uma vez que os governos tiveram de despejar trilhões de dólares e euros para salvar bancos em várias partes do planeta.

Por fim, Strauss-Kahn chamou a atenção para os persistentes desequilíbrios globais. Lembrou que, assim como ocorria antes do estouro da crise, a China obtém expressivos superávits em conta corrente (resultado, principalmente, das exportações bem superiores às importações), ao passo que países como os Estados Unidos continuam registrando fortes déficits.

Em relação à crise da Grécia, o diretor-gerente do Fundo disse estar "confiante" no plano apresentado pelo governo, respaldado pelos outros países que compõem a zona do euro. "A questão, claro, é a implementação. Não subestimo os problemas da Grécia, mas não vejo outra saída para resolvê-lo", ressalvou.

Brasil. Especificamente em relação ao Brasil, Strauss-Kahn repetiu o que disse na entrevista publicada pelo Estado no domingo. Segundo ele, o País "precisa gerenciar o crescimento para que não haja um superaquecimento". "A tendência (de longo prazo) para o Brasil é de uma expansão de 4% a 4,5%. Mas este ano será muito mais."

Segundo ele, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro pode crescer até 7% em 2010. Por ora, a previsão oficial do FMI para o País é de um crescimento de 5,5%. O risco, disse Strauss-Kahn, é de que uma expansão acima do potencial resulte em alta da inflação.

O diretor-gerente do Fundo elogiou o papel do Brasil nas negociações do G-20 que culminaram com a reação coordenada à crise. "O presidente Lula representou um papel chave na reação à crise no âmbito do G-20 por causa da sua personalidade."

Para Strauss-Kahn, "no futuro", países emergentes certamente poderão assumir o comando de instituições como o próprio Fundo. "Mas há muitos países ao redor do mundo. Não poderão ser apenas brasileiros."

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