REUTERS/Ueslei Marcelino
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Diretor-geral da OMC afirma que disputa entre EUA e China pode ir além de tarifas

Diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Roberto Azevêdo afirmou que ainda há 'muita munição' e que guerra comercial pode ultrapassar imposição de barreiras tarifárias

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2018 | 13h45

RIO- A disputa comercial entre Estados Unidos e China não terminará após os dois países elevarem todas as tarifas sobre produtos e serviços comprados um do outro, pois há espaço para uso de barreiras não tarifárias e até mesmo para retaliações em outras áreas além do comércio externo, afirmou nesta quarta-feira, 19, o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo.

"Algumas pessoas acham que esgotando-se as tarifas do comércio bilateral acabou. Não acho que acabou não. Há muita munição. Isso pode escalar para outras áreas, que não apenas a área tarifária. É um caminho muito perigoso. Pode não ficar apenas na área comercial", afirmou Azevêdo a jornalistas, após dar palestra em evento promovido pela Federação das Indústrias do Rio (Firjan).

Azevêdo evitou citar exemplos de barreiras que poderiam ser usadas na guerra comercial. "Não vou dar aqui a munição nem vou especular, mas a área tarifária não esgota o potencial de tensão", afirmou o embaixador. Segundo o diretor-geral da OMC, há uma "quantidade" de opções.

"Qualquer pessoa que tenha conhecimento dos mecanismos econômicos e comerciais das relações entre países vai conseguir identificar uma quantidade de outras áreas que podem entrar no conflito", afirmou o embaixador.

Segundo o diretor-geral da OMC, Estados Unidos e China estão conversando em meio à elevação das tarifas de lado a lado, mas "em fazer progresso". Questionado sobre se a guerra comercial é preocupante, Azevêdo respondeu: "A situação não é preocupante. A situação é muito preocupante".

'Primeiros tiros da guerra comercial já foram dados', afirma Azevêdo

Os primeiros tiros da guerra comercial já foram dados, afirmou o diretor-geral da OMC, numa referência à escalada de tarifas nas exportações e importações entre Estados Unidos e China. Em palestra no Rio, Azevêdo classificou o cenário internacional como "muito desafiador" e afirmou que o sistema de solução de controvérsias está em risco.

"Independente da opinião sobre se estamos ou não (em guerra comercial), claramente os primeiros tiros já foram dados. E não foram poucos", afirmou.

Segundo o diretor-geral da OMC, a disputa comercial vai afetar o crescimento do comércio global e também da economia mundial. A alta do câmbio em países emergentes já seria um reflexo desse momento de instabilidade no cenário internacional.

Além do impacto econômico, Azevêdo citou preocupação com "um impacto sistêmico". "A retórica chega mesmo a rejeitar alguns princípios básicos do comércio internacional", afirmou, citando a não discriminação de países como um desses princípios.

Azevêdo também aproveitou para defender o sistema de solução de controvérsias, "que é criticado, mas é muito eficaz" e está em risco. Segundo o embaixador, em 2018, a OMC registrou o maior número de casos abertos no período de 12 meses. A procura de países para resolver conflitos na OMC demonstraria "confiança dos membros no sistema", mas ao mesmo tempo sobrecarrega o órgão de apelações, "que já está muito próximo de seu limite".

Segundo o diretor-geral da OMC, os mandatos de membros do órgão vêm terminando, mas eles não estão sendo substituídos, especialmente por causa de bloqueios por parte dos Estados Unidos. "No fim do ano que vem, estaremos abaixo do limite de três se não houver recondução de membros do órgão de apelação", disse Azevêdo.

Roberto Azevêdo ainda defendeu os sistemas de solução de controvérsias nos tratados de comércio internacional e disse que não está certo de que os Estados Unidos se opõem a esse tipo de mecanismo. "Não sei se os Estados Unidos certamente não querem solução de controvérsias", afirmou.

Segundo Azevêdo, há conversas sobre alternativas para a solução de controvérsias no comércio internacional, diante de eventual oposição americana. Ainda assim, o diretor-geral da OMC lembrou que, no caso da negociação bilateral com o México em torno do Nafta, os Estados Unidos aceitaram um mecanismo de solução de controvérsias.

OMC espera que Brasil continue ativo na organização

O diretor-geral ainda ressaltou que o Brasil é participante ativo das conversas internacionais em torno do órgão multilateral e disse esperar que o novo governo, a ser eleito em outubro, mantenha essa postura.

Para ele, as eleições de outubro poderiam ser uma oportunidade para discutir a importância do comércio internacional para a economia brasileira. O embaixador frisou que nem todos os países emergentes são ativos nas conversas na OMC. "Independente do resultado das eleições, o Brasil vai continuar sendo muito ativo nessas conversas. Espero que continue assim", afirmou o diretor-geral.

Ele defendeu uma estratégia comercial que foque, ao mesmo tempo, em acordos bilaterais e nas negociações multilaterais. Segundo o embaixador, acordos bilaterais fomentam o comércio internacional e quanto mais desimpedido ele for, melhor. "Depois você vai 'multilateralizando'. Tem que atuar nas duas frentes", afirmou Azevêdo.

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