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Discurso de Bolsonaro de fim de 'confinamento em massa' tem respaldo na equipe econômica

Guedes tem insistido na avaliação que, com medo do coronavírus, as pessoas vão desorganizar completamente a cadeia produtiva do País

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 11h31

O polêmico e criticado discurso do presidente Jair Bolsonaro, em que pediu o fim do “confinamento em massa” diante da escalada da pandemia do novo coronavírus, tem eco na equipe econômica. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, é um dos integrantes do governo a alertar o presidente Bolsonaro sobre o risco da paralisação brusca da economia. 

Nos bastidores de Brasília, o comandante da política econômica tem sido um contraponto à continuidade de um bloqueio generalizado e às medidas de fechamento do comércio e isolamento domiciliar para todos os brasileiros adotadas por muitos governadores. 

Não foi à toa que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em linha com o presidente Jair Bolsonaro, afirmou na terça, 24, que restrições impostas nos Estados, como fechamento de comércios, são "péssimas" para o setor de saúde. Apesar de afirmar que não irá pedir aos governadores para afrouxarem as medidas, ele disse que alguns estão percebendo que aceleraram decisões e que será necessário fazer ajustes.

Oficialmente, em entrevista ao Estado, na segunda-feira, 23, Guedes deu uma resposta curta quando foi questionado sobre o confinamento recomendado antes pelo colega Mandetta para conter o alastramento da pandemia: “Eu tenho que seguir, por enquanto, o Mandetta. Ele é o médico”.  

Os argumentos que têm sido usados é que o bloqueio do comércio desconsidera o enorme impacto humanitário e social de uma recessão econômica profunda, que afeta principalmente os segmentos mais vulneráveis da população. 

Nesse cenário, o custo no pós-crise epidêmica seria mais prejudicial para a população. Circulam previsões na Esplanada que o Brasil pode demorar mais de quatro anos para se recuperar do baque econômico, portanto, depois das próximas eleições presidenciais em 2022.

O Estado apurou que Guedes tem insistido na avaliação que, com medo do coronavírus, as pessoas vão desorganizar completamente a cadeia produtiva do País.

Há uma frustração da área econômica porque no primeiro bimestre (janeiro e fevereiro), a arrecadação do governo federal estava crescendo 20% acima do previsto. Agora, há empresas de muitos setores com caixa zero. 

O governo deve anunciar em breve postergação por 90 dias do pagamento de tributos federais para localidades que decretaram calamidade, medida está prevista em portaria de 2012 ainda em vigor, como mostrou reportagem do Estado.

No último dia 16, o  ministro da Economia já havia sinalizado sua posição. Guedes fez um apelo para que a economia brasileira não entrasse em colapso em razão do coronavírus. Em entrevista para anunciar medidas emergenciais para conter o impacto do avanço da doença na economia, chegou a sugerir que os jovens circulassem, e que apenas os idosos, mais vulneráveis ao coronavírus, fiquem confinados. Mas depois recuou e disse que a melhor orientação cabe ao Ministério da Saúde.

"Não é economista que vai falar de saúde, os mais idosos evidentemente têm que se recolher, talvez se aplique até mim. Os mais idosos evidentemente devem se recolher. Os mais idosos vão pra casa, os mais jovens podem circular, tem mais saúde, mais defesa imunológica, e a economia consegue encontrar um meio termo. Porque se ficar todo mundo em casa, o produto (PIB) colapsa", disse.

Com 70 anos, o ministro está em isolamento domiciliar, no Rio de Janeiro, de onde despacha por videoconferência.

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