''Discurso não vai garantir trabalho de ninguém''

Presidente da CNI responde a Lula e diz que ?momento é delicado, crédito é caro e a demanda tem caído?

MONICA BERNARDES, MÔNICA CIARELLI, CLEIDE SILVA e MARILI RIBEIRO, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e deputado federal por Pernambuco, Armando Monteiro Neto (PTB) - que estava no mesmo evento em que Lula criticou as empresas pelas demissões -, foi cuidadoso, mas respondeu às críticas."Vivemos um momento delicado. O crédito está caro, a demanda tem caído. Não se trata de ser ou não generoso. Se não houver um cuidado muito grande por parte do empresariado, as empresas acabam e sem elas, definitivamente, não haverá emprego", afirmou Monteiro Neto. "Infelizmente não é com discurso ou com a simples vontade que podemos garantir o emprego de ninguém."Por meio de sua Assessoria de Imprensa, a Vale informou que respeita o pensamento do presidente Lula, mas esclareceu que a companhia terminou 2008 com saldo de 5 mil postos de trabalho (contratou mais funcionários do que demitiu). Nas críticas à atitude de empresas que tiveram altos lucros no ano passado e agora estão demitindo, Lula citou nominalmente a mineradora Vale, a primeira companhia a anunciar demissão em massa no ano passado. A assessoria destacou que a empresa "luta para salvar cerca de 6 mil postos, que representam o número de funcionários em férias coletivas, que não têm atividades nas minas."O presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos (Sindipeças), Paulo Butori, tem dito que demitir, além de triste, é caro. "Selecionamos e contratamos o pessoal, que passa por treinamentos durante seis a oito semanas antes de ir para a linha", explicou. "Dizer que demitimos sem necessidade é conversa louca."Segundo Butori, não dá para manter o quadro de pessoal se, de uma hora para outra, as encomendas despencam de 30% a 40%. Desde outubro, o setor de autopeças demitiu mais de 8 mil pessoas. Além disso, é o que mais tem feito acordos de redução de jornada e salários.Nas montadoras, ocorreram 5,5 mil demissões entre novembro e janeiro. Parte era de operários contratados por prazo de um ano, que tinham esperanças de serem efetivados. "É muito frustrante não renovar o pessoal", afirmou o presidente da General Motors do Brasil, Jaime Ardila. A GM suspendeu no mês passado 800 contratos que venceriam em junho na fábrica de São José dos Campos e não deve renovar outros 1,6 mil na unidade de São Caetano do Sul que vencem até março. Em encontro com mais de 300 empresários em São Paulo, ontem (ver página B4), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também fez uma queixa, ainda que velada, ao setor automobilístico. Ele considera que a retração da atividade foi motivada muito mais pelo susto, que levou as empresas a paralisarem a produção em dezembro, do que pela drástica queda da demanda. "O susto fez a produção cair fortemente e houve falta de mercadoria para atender o consumidor."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.