Antonio Lacerda/EFE
Falta liderança na Petrobras para dar andamento ao processo de privatização das refinarias. Antonio Lacerda/EFE

Discurso pró-mercado da Petrobrás continua, mas na prática é diferente

Na atual gestão, falta 'empurrão' para venda de refinarias, e reajustes de combustíveis estão mais espaçados; eventual controle dos preços pelo governo também preocupa

José Fucs, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 05h00

Nos quatro meses e meio em que está à frente da Petrobras, o general Joaquim Silva e Luna não promoveu um movimento disruptivo em relação às diretrizes adotadas na gestão do economista Roberto Castello Branco.

Mas, ainda que oficialmente a Petrobras continue a usar as cotações do petróleo importado, acrescidas do custo do frete e das taxas portuárias, como base para a definição dos preços dos combustíveis no País, os reajustes estão ocorrendo de forma mais espaçada do que antes. Pode parecer algo estranho, em meio à escalada de preços observada nos últimos tempos, mas é o que está acontecendo, de acordo com um ex-executivo da companhia que acompanha o assunto de perto. Isso acaba levando a Petrobras a absorver, entre um reajuste e outro, variações ocorridas nos preços do petróleo importado, em prejuízo de seus acionistas. 

O mesmo se pode dizer sobre a privatização das refinarias da empresa, que foi bem encaminhada pela gestão anterior, segundo o ex-executivo ouvido pelo Estadão. Embora a Petrobras informe que “continua comprometida” com a venda, falta liderança para “empurrar” o processo e enfrentar a resistência da corporação. Há também insegurança de potenciais compradores em relação à política de preços praticada pela companhia, por mais que ela reforce a disposição de manter a paridade com as cotações externas. 

Na semana passada, a Petrobras até anunciou a venda da refinaria Isaac Sabá (REMAN), localizada em Manaus, por US$ 189,5 milhões (R$ 985,4 milhões), e reafirmou a intenção de se desfazer de outras quatro refinarias ainda este ano, conforme cronograma definido no aditivo ao Termo de Compromisso de Cessão (TCC) firmado com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Mas, ao mesmo tempo, a empresa informou que os investidores interessados na compra da refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco, cuja construção custou R$ 20 bilhões, um recorde mundial, desistiram do negócio. 

Mais do que um desdobramento normal de um processo de privatização de um ativo desta grandeza, o fracasso das negociações para a venda da RNEST revela muito sobre a percepção dos investidores em relação ao momento vivido pela Petrobras e pelo País.

Como apurou o Estadão, o grupo indiano Essar, que era um dos interessados, decidiu abandonar a negociação por temer um eventual controle de preços de combustíveis, insinuado pelas seguidas afirmações de Bolsonaro sobre a questão, e a Cosan, que era o outro interessado, resolveu seguir o mesmo caminho. 

Nada, porém, parece ter mudado tanto na Petrobras após a chegada de Silva e Luna quanto o horário de trabalho no gabinete da presidência, segundo informações obtidas pelo Estadão. Como nos quartéis, em que o expediente se encerra às 17h, é difícil encontrar o general no batente depois disso. Mesmo para tratar de assuntos mais urgentes, ninguém quer incomodar o chefe à noite.

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Cúpula da Petrobras passa por ‘militarização’ após chegada de Silva e Luna

Presidente da empresa recheou sua assessoria com colegas da caserna e levou ex-chefe da Marinha para a Transpetro; número de oficiais na cúpula da Petrobras é mais do que o triplo do que havia na gestão anterior

José Fucs, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 05h00

Em meio à disparada dos preços dos combustíveis no País e às benesses concedidas pelo presidente Jair Bolsonaro aos caminhoneiros, como o subsídio para o óleo diesel, uma mudança significativa ocorrida na cúpula da Petrobras passou praticamente despercebida pelo público. 

Sem alarde, o general Joaquim Silva e Luna, presidente da companhia, recheou a sua assessoria com colegas da caserna, em linha com a “militarização” ocorrida em outras estatais e na administração direta federal desde o início do atual governo, em 2019.

Segundo apurou o Estadão, Silva e Luna já contratou pelo menos seis militares para atuar em postos de apoio à presidência da Petrobras e da Transpetro, a maior subsidária da estatal, desde que assumiu o comando, em meados de abril, em substituição ao economista Roberto Castello Branco, defenestrado por Bolsonaro por se opor a interferências no preço do diesel e até por trabalhar em home office na pandemia. 

Com as novas contratações, o número de oficiais abrigados na cúpula da empresa chega a pelo menos dez, incluindo o próprio Silva e Luna, mais do que o triplo do que havia na gestão anterior. 

Terceiro mandato

Fazem parte da lista de novatos o coronel Ricardo Pereira de Araújo Bezerra, o major Ângelo Martins Denicoli e os capitães Luiz Sérgio Mendes e Arceli Pedrozo de Oliveira, contratados como assessores da presidência, além do coronel Jorge Ricardo Áureo Ferreira, chefe de gabinete de Silva e Luna. O sexto integrante do grupo é o almirante Ilques Barbosa Júnior, alocado como assessor da presidência da Transpetro, voltada às operações de importação e exportação de petróleo e produtos derivados, gás e etanol.

A nova tropa se une a outros três militares abrigados na direção da estatal desde os tempos de Castello Branco, por indicação do próprio Bolsonaro, que continuam em seus cargos – o almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, que teve seu nome aprovado em assembleia de acionistas realizada na semana passada para seu terceiro mandato como presidente do conselho de administração, o capitão-tenente Carlos Victor Guerra Nagem, contratado para a assessoria da presidência com salário de R$ 55 mil por mês, e o coronel Ricardo Silva Marques, que assumiu a gerência executiva de Inteligência e Segurança Corporativa. 

“A Petrobras está ficando militarizada”, disse um ex-executivo da empresa ao Estadão. “O presidente do conselho de administração é um almirante. O presidente da companhia é um general. Ele é assessorado por coronéis e capitães e colocou um almirante como assessor na Transpetro.”

Cloroquina

Os seis militares contratados por Silva e Luna exerceram outros cargos no governo antes de ir para a estatal. Os coronéis Ferreira e Bezerra e os capitães Mendes e Oliveira trabalharam com ele quando estava à frente da Itaipu Binacional, entre fevereiro de 2019 e abril deste ano, e migraram com o chefe para a Petrobras. 

Denicoli era o diretor do Departamento de Monitoramento e Avaliação do Sistema Único de Saúde (SUS) na gestão do general Eduardo Pazuello no ministério da área, quando se tornou conhecido pela defesa entusiasmada que fazia do “tratamento precoce” contra o coronavírus, à base de cloroquina, apoiado por Bolsonaro. Demitido pelo atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, Denicoli não ficou ao relento e foi “premiado” pelos serviços prestados com um posto na assessoria de Silva e Luna. 

Já o almirante Ilques, como é mais conhecido, era o comandante da Marinha até o fim de março e deixou o posto, junto com os chefes do Exército e da Aeronáutica, em solidariedade ao general Fernando Azevedo e Silva, então ministro da Defesa, demitido por Bolsonaro por ter se recusado a aceitar, como os seus subordinados, a politização das Forças Armadas e uma eventual ruptura institucional insinuada por Bolsonaro em suas falas. Como uma espécie de compensação, acabou convidado por Luna e Silva para aportar na Transpetro. Defensor do aumento de investimentos públicos na indústria naval, como aconteceu nos governos Dilma e Lula, é tido nos bastidores como potencial substituto do atual presidente da empresa, Gustavo Raposo.

Questões técnicas

Procurada para comentar o assunto, a Petrobras negou, por e-mail, que tenha havido uma “militarização” na cúpula da companhia na atual gestão. “Sob qualquer ótica de comparação, não há o que se falar sobre uma suposta militarização da Petrobras, uma empresa com 39 mil empregados próprios”, diz a mensagem enviada pela assessoria de imprensa, em resposta às perguntas feitas por escrito pela reportagem. 

De acordo com a mensagem, 4.452 pessoas ocupam hoje funções gerenciais na companhia, das quais apenas sete, o equivalente a 0,16% do total, são militares, e não há nenhum militar entre os oito diretores executivos indicados por Silva e Luna e aprovados pelo conselho de administração. Na atual gestão, segundo a empresa, o número de assessores civis e militares caiu de 23 para oito, e o número de consultores, de dois para zero. 

“Os assessores da presidência limitam-se a assessorar o presidente em questões técnicas e não têm, entre suas atribuições, a prerrogativa de decidir sobre a gestão. É importante ressaltar que os empregados a quem a reportagem se refere passaram para a reserva das Forças Armadas e, nesta condição, como cidadãos brasileiros, não há impedimento para que assumam funções em empresas estatais ou privadas.” 

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