Discursos anti-privatização são jogo de cena, dizem analistas

Sobre os temas menos polêmicos que o governo tem na agenda econômica, como a Lei das S/A, o mercado não acredita que a recente briga com o PFL possa trazer maiores problemas. Mas é fato que a monitoração do cenário político volta revigorada. "O mercado acordou para a questão política, que há muito tempo estava adormecida", afirma o economista chefe do Inter American Express, Marcelo Allain. Ele diz não acreditar que os discursos dos dois principais candidatos à presidência da Câmara, batendo de frente com a privatização - um dos principais pilares da atual política econômica - seja algo a mais do que um simples jogo de cena com objetivos claramente eleitoreiros. Neste caso, para os deputados. "Um presidente da Câmara não pode impedir um processo de privatização e muito menos colocar uma CPI na frente das outras", lembra Allain. Assim como o ex-ministro Mailson da Nóbrega, o economista não acredita em ruptura da base governista. "Depois do dia 14, a coalizão se reorganiza criando uma nova base de força que permitirá ao governo aprovar temas razoáveis como a Lei das S/A", comenta. Para Mailson, não seria surpresa ver em breve, passada essa onda, o deputado Inocêncio Oliveira lutando por projetos do governo. E nem considera o deputado carta fora do baralho na disputa pela Câmara. "Há uma impressão generalizada em Brasília de que o Inocêncio é o melhor candidato para o governo", comenta Mailson, ressaltando a maior penetração do deputado pefelista no chamado baixo clero da Casa e o aparente sucesso para a base governista com a política do "café com leite" com PFL e PMDB alternando-se à frente da Câmara e do Senado.Sucessão 2002 - Para o diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do BBV Banco, Octavio de Barros, o episódio envolvendo os discursos dos candidatos do PFL e do PSDB à presidência da Câmara - Inocêncio defendendo CPI das privatizações e Aécio Neves cobrando revisão do processo - acenderam a luz amarela no mercado sobre a capacidade de evolução das reformas por parte do governo federal. "É um calorzinho do que teremos nos próximos 21 meses", diz o economista, referindo-se à sucessão presidencial. Num tom um pouco mais pessimista, Barros diz que os fatos recentes ampliam a dúvida do mercado sobre a possibilidade da base governista manter-se intacta até 2002. Não que não dê devido o desconto ao fato de os discursos terem sido feitos no calor de uma campanha. "Por mais que se dê o desconto, ficou a marca de uma posição dos candidatos sobre temas que são caros ao governo", comenta. Barros diz que o episódio gerou uma ansiedade que pode perfeitamente se dissipar nos próximos dias, mas que ao mesmo tempo pode se aprofundar no médio prazo caso apareçam mais sinais de enfraquecimento da base governista.

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