Discursos e propostas incoerentes

É claro que não se deve tomar a valor de face programas de governo e promessas proferidas por candidatos em período eleitoral, principalmente em temas econômicos. A economia lida com o problema de promover a alocação eficiente dos recursos escassos entre inúmeros fins alternativos. Escassez e fins alternativos são os dois maiores inimigos dos políticos em campanha. Ao prometer atender às inúmeras e justas demandas da sociedade, o candidato se vê diante de um dilema: ou indica quem pagará a conta e aí pode perder votos ou apresenta programas inconsistentes, em que a soma das partes é maior que o todo.

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2014 | 20h05

Dada a difícil situação em que está a economia brasileira, na atual campanha para a Presidência da República esse problema volta com grande intensidade. Proliferam-se diagnósticos equivocados - propositalmente ou não - sobre as causas de nossos infortúnios e se apresentam programas de ação na área fiscal que, por omitirem como e quem pagará a conta, desrespeitam as leis da aritmética.

Da parte do governo, o que mais irrita é a insistência em atribuir a estagnação da economia, com inflação elevada e deterioração das contas públicas e externas, à crise internacional, em vez de reconhecer o fracasso da "nova matriz macroeconômica".

É claro que não se deve pedir à candidata governamental que fale mal de sua própria gestão, pois isso seria suicídio político. Mas aceitar que algumas ações falharam e prometer mudanças de rumo da política econômica poderia até ajudá-la eleitoralmente e tenderia a melhorar a confiança dos agentes econômicos. No entanto, até agora, a candidata incumbente nem sequer apresentou seu programa de governo, limitando-se a defender o que fez no primeiro mandato, apesar dos resultados decepcionantes da economia.

Quanto aos alegados efeitos da "crise internacional", há dois canais principais de transmissão das oscilações da economia mundial para o País: o primeiro é o fluxo de capitais necessário para financiar o déficit em conta corrente; e o segundo é o comércio exterior.

Recuperação. Apesar do fraco crescimento europeu e da estagnação secular da economia japonesa, o pior da crise internacional de 2008, pelo menos no que se refere aos efeitos negativos para o Brasil, já ficou para trás. 

Estados Unidos e Reino Unido dão indicações de retomada do crescimento, enquanto China, até agora, vem se saindo razoavelmente bem em promover o reequilíbrio de sua economia, com redução apenas gradual do ritmo de crescimento econômico.

Mas o fato mais marcante da atual situação econômica mundial é a abundância de liquidez, decorrente principalmente das políticas monetárias fortemente expansionistas que vêm sendo praticadas pelos bancos centrais dos países desenvolvidos. O baixo crescimento e o risco de deflação na zona do euro levaram recentemente o Banco Central Europeu, presidido pelo arrojado Mario Draghi, a anunciar a intensificação dessa política. Até mesmo nos países que mostram desempenho mais animador da economia, como Estados Unidos e Reino Unido, o aperto monetário deverá ocorrer de forma muito gradual e cuidadosa, pois importantes indicadores ainda deixam dúvidas sobre a robustez da recuperação do mercado de trabalho. 

Além disso, em virtude do ajuste dos balanços patrimoniais de empresas e famílias e dos programas de consolidação fiscal dos governos, especialmente na Europa, a demanda global por crédito é inferior à oferta. 

Assim, as taxas internacionais de juros se mantêm muito baixas. Nessas circunstâncias, na busca por remunerar seus portfólios, os poupadores reduzem sua aversão ao risco, e isso favorece enormemente o fluxo de capitais para aplicações mais arriscadas, como as dirigidas aos países emergentes. O Brasil não está encontrando dificuldades para financiar seu enorme déficit em conta corrente, apesar da deterioração da economia doméstica.

O que dizer do segundo canal, qual seja, o comércio internacional? Também não é por aí que a economia mundial está afetando negativamente o Brasil. Em 2009 e 2010 o volume de comércio mundial recuperou-se de forma célere do baque provocado pela recessão de 2008, tendo crescido 25% em apenas dois anos. Do início de 2011 para cá, vem crescendo a taxas anualizadas bem mais modestas (em torno de 2,5%), mas, ainda assim, cerca de 0,5% ao ano superior à expansão (em volume) do fluxo de comércio do Brasil com o resto do mundo.

Outro indicador importante é a relação de trocas com o exterior (ou seja, preço de nossas exportações dividido pelo preço de nossas importações). É verdade que tal relação vem piorando, tendo caído 13% desde o pico registrado em 2010, mas continua em patamar muito favorável, aproximadamente 15% acima da média histórica, e ainda é bem superior aos níveis registrados no período 1990-é bem superior aos níveis registrados no período 1990-2009.

Enfim, alguém precisa informar esses números à presidente Dilma para que ela pare de falar em sua campanha que as dificuldades da economia brasileira decorrem da crise internacional.

Marina Silva.

O que dizer do programa de governo de Marina Silva, que provavelmente enfrentará a atual presidente no segundo turno da eleição? Sua proposta ortodoxa de política macroeconômica - com reequilíbrio dos preços públicos defasados, austeridade fiscal, menor interferência na economia (inclusive no mercado de câmbio), independência formal do Banco Central e compromisso de fazer a inflação convergir para 3% ao ano - soa como o violino de Paganini aos ouvidos do mercado financeiro.

Mas, ao mesmo tempo que se compromete a reduzir os gastos correntes da União, propõe manter e incrementar os programas sociais, prosseguir com a política de valorização do salário mínimo, aumentar fortemente os gastos em saúde e educação, ampliar a desoneração da contribuição patronal para a Previdência, etc. Reforma da Previdência? Manter ou não o fator previdenciário Nenhuma menção.

Infelizmente, apesar das inegáveis boas intenções da candidata e da reconhecida competência de seus assessores na área econômica, sua proposta fiscal também não fecha.

*Economista, diretor-presidente da MCM Consultores, foi consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda

 

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