Disparada do dólar eleva dívida de empresas

Dados do BIS mostram que estoque de compromissos no exterior de empresas e bancos foi a R$ 2,43 trilhões

Fernando Nakagawa , O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2015 | 02h05

LONDRES - Algumas empresas e bancos brasileiros com dívida no exterior devem estar preocupados com a recente disparada do dólar. Mesmo sem tomar nenhum centavo extra emprestado ou emitir novo título de dívida, o estoque de compromissos no exterior de instituições financeiras, companhias e setor público do Brasil cresceu, quando convertido em reais, em R$ 168 bilhões apenas nos últimos 30 dias. Em moeda estrangeira, o total da dívida não foi alterado, mas o enfraquecimento da divisa brasileira exige mais reais para que o mesmo compromisso seja quitado.

Dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) relativos ao fim de março mostram que bancos do exterior registravam US$ 369 bilhões em empréstimos a clientes brasileiros ou com garantias declaradas no Brasil. Ao mesmo tempo, o mercado de títulos de dívida tinha estoque de US$ 308 bilhões em papéis emitidos por empresas e bancos com sede no Brasil. Portanto, US$ 678 bilhões em compromissos financeiros no exterior.

Com a recente disparada do dólar, essa dívida externa pode exigir um pouco mais de cuidado dos devedores. Levando-se em conta a taxa de câmbio do fechamento da quarta-feira, esse endividamento convertido para a moeda brasileira alcança R$ 2,43 trilhões. A cifra é R$ 168 bilhões maior que a registrada em 24 de julho, quando o dólar custava menos de R$ 3,35.

O aumento do peso dos compromissos financeiros no exterior pode ser ainda mais delicado diante do momento ruim da economia brasileira, o que pode diminuir as receitas diante da atual recessão. A situação pode ficar ainda mais delicada se a empresa devedora tem receitas em reais e não possui operação de proteção às variações cambiais - o chamado hedge cambial.

Liderança. Os números do BIS mostram que bancos e outras instituições financeiras brasileiras lideravam o endividamento, com cerca de US$ 294 bilhões em compromissos no exterior - sendo US$ 210 bilhões em títulos e o restante em dívida contraída com outros bancos. As empresas não financeiras tinham US$ 240 bilhões a pagar em outros países, sendo US$ 200 bilhões em operações bancárias e o restante em títulos de dívida.

As cifras são diferentes das informadas pelo Banco Central do Brasil porque o BIS usa outras fontes e leva em conta a nacionalidade, e não a residência do devedor. Assim, se um banco brasileiro, por exemplo, usa uma filial nos Estados Unidos ou na Holanda para emitir dívida, o endividamento aparece no dado do BIS relativo ao Brasil e não no indicador americano ou holandês.

De acordo com o BIS, bancos e empresas de países emergentes aproveitaram a liquidez abundante e juro baixo para se endividar. Os dados do banco mostram que apenas as instituições financeiras e companhias do Brasil emitiram US$ 179 bilhões em títulos entre 2010 e 2014. O BIS, porém, teme que devedores não estejam devidamente protegidos da variação cambial. "Lucros em queda e um dólar mais forte podem tornar mais difícil o serviço da dívida externa", diz a entidade, alertando que a queda do preço das commodities também pode preocupar.

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