Wilton Júnior/ Estadão
Casa de câmbio no centro do Rio mostra o dólar americano em R$4,70 para venda no dia 5 de março de 2020 Wilton Júnior/ Estadão

Disparada do dólar já pressiona preços

Empresas que trabalham com peças e insumos importados, como as montadoras, falam em ajustes que podem superar os 10%

Cleide Silva, Renée Pereira e Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 04h00

Um dos principais reflexos da atual escalada do dólar deve ser o aumento de preços de vários produtos no mercado, como carros, combustíveis e aço. Hoje, as empresas brasileiras trabalham com peças e insumos importados para fabricação de uma série de bens e também para a construção de projetos, como o de petróleo e gás e energia elétrica. Se o dólar continuar nesse patamar durante um tempo longo, as companhias terão de repassar o aumento de custo para o consumidor. 

Nos cálculos do presidente da siderúrgica CSN, Benjamin Steinbruch, a empresa terá de fazer um ajuste de preço superior a 10% entre os meses de abril e maio para recompor a valorização da moeda americana. “O dólar a R$ 4,60 parece que veio para ficar”, diz o executivo.

No setor automobilístico, a escalada do dólar tem acendido um sinal de alerta em relação aos possíveis prejuízos e repasses de preços.

Segundo o presidente da General Motors América do Sul, Carlos Zarlenga, cerca de 40% das peças usadas nos carros da marca produzidos no País são importadas. “Entre os maiores impactos está o preço dos carros, que já teve aumento em 2020”, diz ele, sem detalhar índices. Ele ressalta, porém, que “a subida de preços está muito aquém da alta do dólar.”

Para o executivo, essa situação gera ainda mais perdas da rentabilidade das empresas que já está comprometida desde a crise que se iniciou em 2014 e a forte queda no volume de vendas no País. “O impacto positivo que essa alta do dólar poderia ter, que seria o aumento das exportações, infelizmente não é uma realidade devido ao custo Brasil, puxado pela alta carga tributária e ineficiências como a logística, por exemplo.”

O vice-presidente da Ford América do Sul, Rogelio Golfarb, também reclama que a disparada do dólar “é um peso enorme nos custos das montadoras”. Ele lembra que a maior parte dos componentes eletrônicos não são produzidos no Brasil e estão sendo importados principalmente para atender à demanda por maior conectividade nos carros e novas tecnologias. 

Também há sistemas que reduzem o consumo de combustíveis e as emissões, que passam a ser obrigatórios para atender as normas do programa automotivo Rota 2030. As empresas que não cumprirem metas serão multadas. “O câmbio tem de ser flutuante, mas é preciso minimizar a volatilidade”, diz o executivo.

O presidente da BMW do Brasil, Aksel Krieger, diz que “o valor do dólar atual merece atenção, mas também calma e mais tempo para uma análise, pois tudo isso é reflexo do impacto global por causa do coronavírus.” A empresa produz no País carros de luxo da marca alemã com alto conteúdo de itens importados.

O executivo afirma que será preciso avaliar eventuais impactos na inflação e quais medidas serão apresentadas como compensação pelo governo brasileiro, que deverá trabalhar para cumprir suas metas. “Também precisamos ainda entender quanto tempo vai durar (essa volatilidade).”

Segundo o estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz, uma desvalorização de 10% do câmbio tem impacto de 0,12 ponto porcentual no IPCA. Mas, na avaliação dele, a expectativa é que o câmbio recue um pouco, pelo menos, para os níveis pré-coronavírus, quando o dólar estava na casa de R$ 4,15.

Na avaliação do diretor de Tesouraria do Banco Santander, Luiz Masagão, a moeda americana no atual patamar começa a causar impacto negativo e pode afetar o crescimento econômico. Para ele, a velocidade de alta do dólar faz com que os investimentos – que já têm sido escassos no Brasil – sejam postergados até que o cenário fique mais claro. “O risco reduz o apetite até mesmo para um consumidor. Dólar caro gera uma perspectiva de que algo ruim está para ocorrer. Nesse cenário, o consumidor reduz o consumo”, explica o executivo.

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Tensão cresce no mercado global e faz dólar ir a R$ 4,65 e Bolsa recuar 4,65%

Moeda americana registrou a 12ª alta consecutiva e já acumula avanço de 15,9% no ano, apesar das intervenções do Banco Central; economistas se dizem surpresos com escalada observada no câmbio e Bolsas perdem no mundo inteiro

Renée Pereira e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 09h15
Atualizado 06 de março de 2020 | 05h32

Em mais um dia de estresse no mercado global por causa dos temores em relação aos efeitos do surto de coronavírus, o dólar resistiu às três intervenções do Banco Central (BC) e fechou em alta de 1,56%, cotado em R$ 4,651. A Bolsa brasileira (B3) também sucumbiu ao mau humor global e caiu 4,65%, para 102.233 pontos, acompanhando o desempenho ruim das bolsas americanas. 

As Bolsas caem pelo mundo todo e o dólar se valoriza porque os investidores temem os efeitos causados pelo surto na produção, no consumo e nas viagens, por exemplo. Essa paralisia deve afetar os resultados das empresas.

Na quinta, 5, o dólar registrou a 12.ª alta consecutiva, apesar de o BC injetar US$ 3 bilhões no mercado ao longo do dia. A atuação, no entanto, foi considerada tímida pelos operadores e teve pouco efeito na cotação, que chegou a bater em R$ 4,667. Diante do cenário, o BC anunciou, no fechamento do mercado de quinta, novo leilão para esta sexta, de US$ 2 bilhões.

No mercado, economistas se dizem surpresos com a velocidade da alta do dólar nas últimas semanas. Desde janeiro, a valorização da moeda americana foi de 15,9%, o que dá ao real o pior desempenho numa cesta de 34 moedas. “Não contávamos com essa pressão forte no câmbio”, afirma o economista da Tendências Consultoria Integrada, Silvio Campos Neto. Para ele, há uma tempestade perfeita que está conduzindo o movimento dos investidores no mundo.

O principal fator que tem ditado o humor do mercado financeiro desde o fim de janeiro é a disseminação do coronavírus e temores sobre os seus efeitos na economia global, diz o estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz. Isso levou o Fed, o banco central americano, a fazer corte extraordinário nos juros esta semana, o que mexeu com as expectativas do mercado. O Congresso americano aprovou um pacote fiscal de US$ 8,3 bilhões para minimizar os efeitos do surto. 

PIB

Mas as notícias locais também têm dado motivo para a forte turbulência dos mercados e contribuído para manter o real desvalorizado. Segundo Campos Neto, o desempenho da moeda também está relacionado ao desempenho da economia, que em 2019 cresceu apenas 1,1%. Junta-se a isso o fato de a taxa de juros do País estar no menor patamar da história. “A contrapartida é essa. Hoje não há mais atrativo para o investidor colocar dinheiro aqui.”

Para completar o quadro interno, as reformas necessárias para o crescimento sustentável do País estão estagnadas, diz o economista sênior da XP, Marcos Ross: “Está tudo parado. E o reflexo disso é no desempenho da economia.”

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Guedes volta a dizer que câmbio é flutuante e que 'não há nada de errado’ com dólar

Para explicar alta da moeda americana, ministro cita coronavírus, desaceleração global, incerteza e ruído político

André Ítalo Rocha e Pedro Caramuru, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 16h07

SÃO PAULO - O ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a afirmar nesta quinta, 5, que o câmbio é flutuante e que não há “nada de errado” com a cotação da moeda norte-americana, que fechou cotada a R$ 4,65 nesta. O ministro disse que o câmbio está num nível mais alto, e também lembrou que, no passado, o dólar já chegou a girar em torno de R$ 1,80.

Segundo Guedes, que participou de um almoço na Fiesp, o novo patamar do dólar reflete uma mudança de modelo econômico, que inclui diminuição de gastos públicos e juros baixos. “O Brasil era o paraíso dos rentistas”, voltou a dizer, além de afirmar que não acredita que esteja havendo uma fuga de capital.

Ao ser questionado se o dólar poderia chegar a R$ 5, Guedes disse que isso pode acontecer se ele, enquanto ministro, “fizer muita besteira”. “Se eu fizer tudo certo, o dólar cai”, afirmou o ministro, que disse estar confiante nas reformas. 

O ministro, contudo, admitiu que ainda há dúvidas no mercado em relação ao avanço das reformas, com base em notícias veiculadas pela imprensa. “As reformas que faltam, como administrativa e tributária, ainda não foram implementadas. Quando forem feitas, os investimentos virão mais rápido”, disse.

Coronavírus, desaceleração global, incerteza e ruído político

Ainda sobre o dólar, Guedes afirmou que “isso era perfeitamente previsível”. Em seguida, citou alguns motivos para a alta: “tem o coronavírus, a desaceleração global, incertezas. O que vocês [imprensa] estavam dizendo há um ou dois dias? Que está um caos, que o presidente não se entende com o Congresso, que não está havendo coordenação política, toda hora tem uma bomba... Se está havendo todo esse frisson, o dólar sobe um pouco. Se vocês estiverem menos nervosos daqui a um mês, quem sabe o dólar acalma”. 

Além disso, Guedes afirmou que o modelo econômico do Brasil é “quatro por quatro”, com juros na casa dos 4% e dólar na casa dos R$ 4.

O ministro também demonstrou estar tranquilo em relação à governabilidade do presidente. “A governabilidade está acontecendo, estou absolutamente tranquilo, é o regime democrático, com independência dos poderes”, disse.

Guedes disse também que o câmbio preocupa quando sobe rápido, mas, para isso, o Banco Central (BC) está atuando. “Está provendo boa liquidez”, disse. O ministro também afirmou que empresas que remetem recursos para fora do País também influenciam a cotação do câmbio.

 

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