Nilton Cardin/Sigmapress
Alta no preço do botijão de gás de 13 quilos, o chamado gás de cozinha, poderá levar usuários a buscarem alternativas, como a lenha e o etanol.  Nilton Cardin/Sigmapress

Disparada do preço do petróleo chega ao gás de cozinha, que tem primeira alta do ano

Segundo associação de revendedores, tendência é que o botijão atinja entre R$ 150 e R$ 200 este ano; reajustes acompanham variação na cotação internacional do petróleo

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 10h39

RIO - O preço do botijão de 13 quilos, o chamado gás de cozinha, nunca esteve tão alto no Brasil, e a tendência é piorar diante da atual escalada de preços do petróleo no mercado internacional. Na quarta-feira, 6, a Petrobrás anunciou o aumento de 6% no gás liquefeito de petróleo (GLP), depois de ter feito um reajuste de 5% no dia 3 de dezembro, o que poderá levar usuários a buscarem alternativas, como a lenha e o etanol.

A alta afeta tanto o preço do gás de cozinha, que será vendido nas refinarias por R$ 35,98 o botijão, quanto o GLP a granel, utilizado por indústrias, comércio, condomínios, academias, entre outros.

"O GLP está deixando de ser um produto de utilidade pública por causa do alto preço, as famílias em miséria absoluta só crescem no Brasil, contradizendo todo discurso de energia barata do governo. Nunca o preço foi tão alto", afirma o presidente da Associação Brasileira dos Revendedores de GLP, Alexandre Borjaili.

O preço do gás de cozinha ficou congelado entre 2007 e 2014, e passou a ter reajustes mensais em 2017, durante o governo Michel Temer. Na mesma gestão, após reação negativa à medida, o botijão 13 Kg passou a ter ajustes trimestrais. Com a entrada do governo Bolsonaro, em 2019, as mudanças de preço passaram a seguir as oscilações do mercado internacional do petróleo, sem periodicidade definida.

De acordo com a prévia do Índice Geral de Preços ao Consumidor (IPCA-15), em 2020 o preço do gás de cozinha subiu 8,30%, enquanto o gás encanado caiu 1,09% e o gás veicular recuou 1,29%. A alta do botijão é quase o dobro da inflação prevista para o período, de 4,23%. A Petrobrás fica com 46% do preço do produto, enquanto distribuição e revenda respondem por 36% e 18% se referem a impostos. Nas refinarias o aumento chegou a 21,9% no ano passado.

"A tendência é de que o preço do botijão atinja de R$ 150 a R$ 200 este ano", projeta Borjaili, informando que os revendedores estão buscando alternativas para oferecer à população brasileira que não terá condições de acompanhar a alta do preço do GLP, principalmente após a venda da Liquigás pela Petrobrás. "O GLP agora está na mão de multinacionais e o princípio social do botijão de 13 Kg foi totalmente abandonado", observa o presidente da associação.

Ele disse que pretende tentar trazer para o Brasil um fogão desenvolvido pela Organização das Nações Unidas (ONU) - Aliança Global por Fogões Limpos - que pode utilizar etanol em vez de lenha, com objetivo de atender a população que não está conseguindo comprar o gás de cozinha, evitando assim a volta do uso de lenha no País. O projeto teria a parceria de produtores de etanol, diz Borjaili.

Colado no preço do petróleo, que não para de subir neste início de 2021 com as notícias sobre o início da vacinação contra a pandemia em vários países, o preço do botijão de 13 kg oscilava entre R$ 59 e R$ 105, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biodiesel (ANP) da última semana do ano passado.

O preço médio da revenda do botijão de 13 Kg, ainda segundo a ANP, saiu de R$ 69 no início da pandemia, em março, para R$ 75 em novembro. Há cinco anos (2015), o botijão de gás de 13 Kg era revendido a R$ 47,43.

Segundo o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano Pires, a expectativa é de que o petróleo suba para US$ 60 o barril este ano, com picos de US$ 70 a US$ 80 no segundo semestre, à medida que a vacinação avance.

"Ninguém esperava fechar o ano com petróleo a US$ 50 (o barril), por isso o resultado da Petrobrás está até melhorando, e, à medida que o sucesso das vacinas avança, já vemos a retomada do crescimento econômico", explica Pires, que aposta em uma retomada da economia em 'V', ou seja, rápida e crescente.

Ele observa também que, ao contrário do que vem sendo especulado, o abastecimento desse crescimento econômico será ainda baseado em combustíveis fósseis, e não na energia limpa, como defendem alguns, apesar do aumento de preço da commodity previsto para 2021.

"Todo mundo ficou mais pobre com essa pandemia, e o que tem de mais barato e abundante no momento ainda é o petróleo e o carvão, não vai ser a economia verde que vai conseguir abastecer de energia o mundo com a retomada prevista para este ano", afirma. 

Demanda por gás de cozinha aumentou na pandemia

Segundo a Petrobrás, o preço do gás de cozinha foi afetado pela maior demanda em 2020, ao contrário de outros produtos da empresa, como gasolina e diesel. "Os preços internacionais de diesel e gasolina foram impactados negativamente pelas restrições de circulação devido à covid-19. Por outro lado, no mesmo contexto, os preços internacionais de GLP se valorizaram devido à maior demanda para cocção, aquecimento e petroquímica. Esses efeitos se refletiram nos preços internacionais de referência e, consequentemente, nos preços internos praticados no Brasil", explicou a estatal ao Estadão/Broadcast.

O GLP também superou bastante o preço do gás natural, o que é explicado pela diferença entre os dois combustíveis. "O 'gás encanado' e 'gás veicular' referem-se ao gás natural, produto extraído diretamente do subsolo e processado em Unidades de Processamento de Gás Natural (UPGN). Dessa forma, o gás natural não necessita passar pelo refino para produção e comercialização", explicou a empresa. / COLABOROU DANIELA AMORIM

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Aumento no preço do GLP provoca queda nas vendas e serve de alerta para alta no diesel

Segundo o Ministério de Minas e Energia, em 2020 o gás de cozinha teve recuo de 20% nas vendas; reajustes acompanham cotação internacional do petróleo

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 10h42

RIO - Os preços elevados no Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) têm provocado a queda de vendas do produto no mercado interno, principalmente o tipo a granel, utilizado pelas indústrias, comércio, condomínios, academias, entre outros estabelecimentos. Segundo dados de comercialização preliminares do Ministério de Minas e Energia (MME), até 27 de dezembro de 2020, o gás de cozinha acumulou queda nas vendas de 20% e o GLP a granel de 32,5% na comparação com o mesmo período até 2019.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Revendedores de GLP (Asmirg BR), Alexandre Borjaili, muitos consumidores já estão buscando alternativas, como gás natural e energia solar, no caso do GLP a granel, e pela lenha, no caso do gás de cozinha. 

"Estamos passando por um momento atípico, com muitas variáveis, e com esses aumentos, que diminuem as compras. Muitos na indústria estão começando a migrar para o gás natural e no caso do gás de cozinha, trocando por lenha”, informou Borjaili. 

Na quarta-feira, 6, a Petrobrás aumentou em 6% o preço do GLP nas suas refinarias, o primeiro reajuste do ano e o décimo desde maio do ano passado. Com a alta, o preço médio do gás de cozinha deve subir para R$ 78,21 o botijão, já que a estatal fica com 46% desse total, e passou a vender o produto a R$ 35,98 nas refinarias. No ano passado, mesmo com a pandemia e a queda de consumo, o GLP subiu 21,9% nas refinarias, informou a estatal.

O movimento reflete a alta do petróleo no mercado internacional, motivada tanto pelo otimismo a cada avanço sobre a vacinação do covid-19 quanto pelo corte de produção anunciado esta semana pela Arábia Saudita, e deve se estender para outros combustíveis, como diesel e a gasolina. A recuperação da commodity está acima do esperado pelo mercado, e já ultrapassou a barreira dos US$ 50 o barril. No auge da pandemia, em abril, o petróleo do tipo Brent chegou a custar US$ 20 o barril. Agora, o mercado já trabalha com preço médio de US$ 60 o barril para 2021.

Para a pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas Energia, Fernanda Delgado, a alta do GLP é um alerta para um provável aumento do preço do diesel, já que os dois combustíveis obedecem à paridade dos preços internacionais, e o petróleo tem reagido bem no mercado, mesmo em plena pandemia do covid-19.

Ela avalia que, com o aumento de preços, quem não conseguir repassar o preço, como é o caso de condomínios, academias, a tendência é buscar a substituição por energias mais baratas. Mas, para quem pode repassar, a conta acabará novamente no bolso do consumidor. “Tem muita coisa fechada e isso afeta as vendas, e, com a disparada dos preços do petróleo no mercado internacional, a tendência é de alta aqui também”, afirmou.

O preço do gás de cozinha ficou congelado entre 2007 e 2014, e passou a ter reajustes mensais em 2017, durante o governo Michel Temer. Na mesma gestão, após reação negativa à medida, o botijão 13 Kg passou a ter ajustes trimestrais. Com a entrada do governo Bolsonaro, em 2019, as mudanças de preço passaram a seguir as oscilações do mercado internacional do petróleo, sem periodicidade definida.

De acordo com a prévia do Índice Geral de Preços ao Consumidor (IPCA-15), em 2020 o preço do gás de cozinha subiu 8,30%, enquanto o gás encanado caiu 1,09% e o gás veicular recuou 1,29%. A alta do botijão é quase o dobro da inflação prevista para o período, de 4,23%. A Petrobrás fica com 46% do preço do produto, enquanto distribuição e revenda respondem por 36% e 18% se referem a impostos.

O preço médio da revenda do botijão de 13 Kg, ainda segundo a ANP, saiu de R$ 69 no início da pandemia, em março, para R$ 75 em novembro. Em 2015, o botijão de gás de 13 Kg era revendido a R$ 47,43. 

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